31.3.22

O que fazer em Pernambuco? Organizar a esquerda do PT, enfrentar as posições moderadas, derrotar o bolsonarismo e eleger Lula com um programa radical

O espaço para as posições mais à esquerda dentro do PT talvez nunca tenha ficado tão pequeno. Mas não desapareceu, pelo contrário. É possível que agora seja o momento mais necessário para que esse espaço seja reafirmado e defendido.

Após anos de um processo de moderação do programa e de uma política de conciliação, esgotada desde antes do golpe de 2016, o PT vive hoje mais um momento decisivo.

Como derrotar Bolsonaro, o bolsonarismo e o programa ultraliberal, e conseguir eleger Lula, fazê-lo tomar posse, governar e, governando, desfazer tudo aquilo que a direita fez pelo menos desde 2016?

Para alguns, o caminho é a constituição de uma ampla frente “democrática”, que reúna setores da centro-direita e da direita, em torno de um programa moderado, que possibilidade a derrota eleitoral de Bolsonaro e a vitória de Lula para a presidência da República.

Para isso, cabe ter o tucano neoliberal Geraldo Alckmin como vice; cabe constituir uma federação com o PV; cabe abrir mão das candidaturas aos governos estaduais na maior parte do país; e cabe retirar do programa questões como a reindustrialização do país.

O que isso significa? Significa dobrar a aposta naquela política de conciliação que levou ao golpe contra Dilma, a condenação, prisão e interdição de Lula, e ao enfraquecimento das organizações do campo democrático-popular.

Os que defendem esse caminho agitam a bandeira de que “é preciso fazer de tudo para derrotar Bolsonaro”. De fato, precisamos fazer de tudo para derrotar Bolsonaro. Mas não podemos fazer aquilo que leve, junto com ele, as nossas possibilidades de derrotar o seu programa e resistir a ofensiva que virá no dia seguinte.

É por isso que no momento em que o PT está em vias de constituir uma federação que terá um programa ainda mais “tímido” do que aquele do Programa de transformação e reconstrução do Brasil, e que a tática de eleger uma forte bancada petista vai ruindo, algo precisa ser feito.

Se seguirmos o caminho que estamos trilhando atualmente, corremos enormes riscos. Risco de perder a eleição para Bolsonaro. Risco de ver a bancada petista no Congresso Nacional ser tomada de assalto por gente da direita. Risco de perder, sem sequer disputar, governos estaduais. E risco de transformar o maior partido de esquerda da América Latina, numa frente eleitoral com um programa extremamente rebaixado.

Assim, para que isso não aconteça, é preciso que em cada lugar do país, em cada local de trabalho, de moradia e de estudo, a militância petista assuma o protagonismo da luta e da resistência.

Em Pernambuco, pelas decisões equivocadas tomadas pela maioria da direção do partido, as dificuldades foram imensamente ampliadas, mas elas ainda podem ser enfrentadas e superadas.

O PT de Pernambuco sempre teve significativo peso nacional, com um conjunto de quadros experimentados na luta e uma militância que foi capaz de eleger na capital do estado o primeiro operário prefeito, antes do país eleger o primeiro metalúrgico presidente.

No entanto, desde 2012, o partido entrou numa espiral de descenso. A derrota política e eleitoral no Recife; a degeneração dos processos de eleição interna, somada a influência nefasta do PSB; a derrota eleitoral de 2014 (quando não elegemos nenhum deputado federal); e a submissão da maioria do partido às posições mais moderadas, além de acelerar o processo de enfraquecimento do PT, interditaram as possibilidades de renovação de seus quadros e de sua política.

Mas em 2016, no amplo processo de resistência popular ao golpe contra a presidenta Dilma, uma parte do PT pernambucano conseguiu iniciar um processo de renovação de seus quadros dirigentes, como ocorreu com a eleição da vereadora Marília Arraes em Recife e com o protagonismo e jovens militantes nos movimentos sociais e populares por todo o estado.

Esse processo reoxigenou parte do PT e permitiu que tivéssemos, em 2018, a oportunidade de apresentar para o estado uma alternativa política de esquerda. Infelizmente, a tão necessária candidatura petista, aprovada pela maioria dos militantes do partido presentes do encontro de tática eleitoral, não se concretizou.

Com isso, o PT voltou a compor a coalisão da “Frente Popular”, capitaneada pelo PSB, mas sem nenhum protagonismo e ao lado de partidos que foram paulatinamente se posicionando na base de apoio do governo Bolsonaro. O próprio PSB, que já tinha sido decisivo para o impeachment da presidenta Dilma, deixou suas digitais em diversas votações contra a maioria do povo brasileiro.

Na votação da PEC que instituiu o Teto de Gastos, que congelou os investimentos públicos em saúde e educação por vinte anos, 22 dos 32 deputados federais do PSB votaram favoravelmente. No texto base da reforma trabalhista, 14 dos 30 deputados federais do PSB que participaram da votação, disseram sim ao projeto. Já no projeto de lei que ampliou a terceirização, dos 21 deputados do PSB que participaram da votação, 11 votaram favoravelmente a proposta.

E não foi diferente nas eleições municipais de 2020. Na disputa pela prefeitura da cidade do Recife, a campanha do PSB se utilizou contra a candidatura petista do mais puro antipetismo de direita. Além disso, parte significativa da direção do partido se manteve ausente da campanha e, em alguns casos, agiu deliberadamente contra a candidatura do PT e em favor do PSB.

Dessa forma, como ocorreu em todo o país, o PT saiu derrotado eleitoralmente em Pernambuco nas eleições municipais de 2020. No entanto, o desempenho de nossa candidatura significou uma importante vitória política, ao ir para o segundo turno e disputar para vencer uma campanha que sequer tinha o apoio necessário do conjunto do partido.

Um cenário que contribuiu para criar as condições do PT seguir como uma alternativa política e eleitoral para o povo pernambucano em 2022. Com Lula recuperando seus direitos políticos e com o desafio de derrotar Bolsonaro, seu governo e suas políticas, uma candidatura petista ao governo de Pernambuco teria imensas chances de contribuir com o projeto nacional e romper com a política de centro-direita implementada pelo PSB no estado.

Mas a linha política da maioria do partido, como já dito anteriormente, é a de retomar a política de conciliação e a moderação do programa. Assim, mesmo com mais de uma possibilidade de candidatura petista, e até mesmo com a decisão por uma destas, a maioria da direção estadual optou por mais uma aliança.

Os motivos alegados, ao menos num primeiro momento, até aparentaram alguma justeza. Afinal, era em nome do projeto nacional (especificamente um gesto para a constituição da federação). No entanto, o próprio PSB, que tinha apresentado a proposta de federação, recuou dela. E recuou mesmo depois do candidato petista ter feito o “gesto político” de retirar sua pré-candidatura.

Com isso, a maioria do PT pernambucano se entregou da luta antes mesmo da batalha começar. E o resultado é que o partido passou a ter uma posição secundária no debate político local, sem sequer saber se iria compor a chapa majoritária e vendo a federação que será constituída tornar-se uma ameaça cada vez maior a sua chapa proporcional. Ainda assim, há quem diga que isso ajudará na eleição presidencial de Lula.

E é diante deste cenário que nos encontramos neste final de março.

Com um dos principais quadros políticos, fruto da recente e inacabada tentativa de renovação, rompendo com essa linha e saindo do partido para tentar construir uma alternativa conectada a candidatura presidencial de Lula.

Com o Diretório Nacional aprovando a federação com o PCdoB e PV, sendo que em Pernambuco o PV está se constituindo enquanto alternativa de setores da direita para aproveitar a votação do PT e com isso reduzir a bancada do partido.

E com a direção estadual sem sequer se reunir e com as instâncias paralisadas.

Não resta, portanto, outra alternativa para a militância petista que não organizar a resistência na esquerda do partido e enfrentar os erros e as debilidades da atual direção.

Há um enorme vácuo que precisa ser rapidamente ocupado, sob pena da política deletéria da maioria esvaziar até mesmo essa possibilidade.

Nesse sentido, a direção estadual da tendência petista Articulação de Esquerda deve se organizar para tentar aglutinar a militância petista em torno das nossas posições e utilizar a campanha eleitoral como instrumento de organização da esquerda petista.

Mesmo com todas as limitações e contradições que uma campanha eleitoral burguesa possui, ela tem se mostrado um momento em que a luta de classes se agudiza e que a polarização política se aprofunda.

Por isso, precisamos nos preparar para enfrentar o momento que estamos atravessando e criar as condições para um salto organizativo que permita disputar em melhores condições os rumos do PT em Pernambuco.

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