O espaço para as posições mais à esquerda dentro do PT talvez nunca tenha ficado tão pequeno. Mas não desapareceu, pelo contrário. É possível que agora seja o momento mais necessário para que esse espaço seja reafirmado e defendido.
Após anos de um processo de
moderação do programa e de uma política de conciliação, esgotada desde antes do
golpe de 2016, o PT vive hoje mais um momento decisivo.
Como derrotar Bolsonaro, o bolsonarismo
e o programa ultraliberal, e conseguir eleger Lula, fazê-lo tomar posse, governar
e, governando, desfazer tudo aquilo que a direita fez pelo menos desde 2016?
Para alguns, o caminho é a
constituição de uma ampla frente “democrática”, que reúna setores da
centro-direita e da direita, em torno de um programa moderado, que possibilidade
a derrota eleitoral de Bolsonaro e a vitória de Lula para a presidência da
República.
Para isso, cabe ter o tucano
neoliberal Geraldo Alckmin como vice; cabe constituir uma federação com o PV; cabe
abrir mão das candidaturas aos governos estaduais na maior parte do país; e
cabe retirar do programa questões como a reindustrialização do país.
O que isso significa? Significa
dobrar a aposta naquela política de conciliação que levou ao golpe contra
Dilma, a condenação, prisão e interdição de Lula, e ao enfraquecimento das
organizações do campo democrático-popular.
Os que defendem esse caminho agitam
a bandeira de que “é preciso fazer de tudo para derrotar Bolsonaro”. De fato,
precisamos fazer de tudo para derrotar Bolsonaro. Mas não podemos fazer aquilo
que leve, junto com ele, as nossas possibilidades de derrotar o seu programa e
resistir a ofensiva que virá no dia seguinte.
É por isso que no momento em que o
PT está em vias de constituir uma federação que terá um programa ainda mais “tímido”
do que aquele do Programa de transformação
e reconstrução do Brasil, e que a tática de eleger uma forte bancada
petista vai ruindo, algo precisa ser feito.
Se seguirmos o caminho que estamos
trilhando atualmente, corremos enormes riscos. Risco de perder a eleição para
Bolsonaro. Risco de ver a bancada petista no Congresso Nacional ser tomada de
assalto por gente da direita. Risco de perder, sem sequer disputar, governos
estaduais. E risco de transformar o maior partido de esquerda da América
Latina, numa frente eleitoral com um programa extremamente rebaixado.
Assim, para que isso não aconteça,
é preciso que em cada lugar do país, em cada local de trabalho, de moradia e de
estudo, a militância petista assuma o protagonismo da luta e da resistência.
Em Pernambuco, pelas decisões equivocadas
tomadas pela maioria da direção do partido, as dificuldades foram imensamente
ampliadas, mas elas ainda podem ser enfrentadas e superadas.
O PT de Pernambuco sempre teve significativo
peso nacional, com um conjunto de quadros experimentados na luta e uma
militância que foi capaz de eleger na capital do estado o primeiro operário prefeito,
antes do país eleger o primeiro metalúrgico presidente.
No entanto, desde 2012, o partido
entrou numa espiral de descenso. A derrota política e eleitoral no Recife; a
degeneração dos processos de eleição interna, somada a influência nefasta do
PSB; a derrota eleitoral de 2014 (quando não elegemos nenhum deputado federal);
e a submissão da maioria do partido às posições mais moderadas, além de
acelerar o processo de enfraquecimento do PT, interditaram as possibilidades de
renovação de seus quadros e de sua política.
Mas em 2016, no amplo processo de
resistência popular ao golpe contra a presidenta Dilma, uma parte do PT
pernambucano conseguiu iniciar um processo de renovação de seus quadros
dirigentes, como ocorreu com a eleição da vereadora Marília Arraes em Recife e
com o protagonismo e jovens militantes nos movimentos sociais e populares por
todo o estado.
Esse processo reoxigenou parte do
PT e permitiu que tivéssemos, em 2018, a oportunidade de apresentar para o
estado uma alternativa política de esquerda. Infelizmente, a tão necessária
candidatura petista, aprovada pela maioria dos militantes do partido presentes
do encontro de tática eleitoral, não se concretizou.
Com isso, o PT voltou a compor a coalisão
da “Frente Popular”, capitaneada pelo PSB, mas sem nenhum protagonismo e ao
lado de partidos que foram paulatinamente se posicionando na base de apoio do
governo Bolsonaro. O próprio PSB, que já tinha sido decisivo para o impeachment
da presidenta Dilma, deixou suas digitais em diversas votações contra a maioria
do povo brasileiro.
Na
votação da PEC que instituiu o Teto de Gastos, que congelou os investimentos
públicos em saúde e educação por vinte anos, 22 dos 32 deputados federais do
PSB votaram favoravelmente. No texto base da reforma trabalhista, 14 dos 30
deputados federais do PSB que participaram da votação, disseram sim ao projeto.
Já no projeto de lei que ampliou a terceirização, dos 21 deputados do PSB que
participaram da votação, 11 votaram favoravelmente a proposta.
E não
foi diferente nas eleições municipais de 2020. Na disputa pela prefeitura da
cidade do Recife, a campanha do PSB se utilizou contra a candidatura petista do
mais puro antipetismo de direita. Além disso, parte significativa da direção do
partido se manteve ausente da campanha e, em alguns casos, agiu deliberadamente
contra a candidatura do PT e em favor do PSB.
Dessa forma, como ocorreu em todo o
país, o PT saiu derrotado eleitoralmente em Pernambuco nas eleições municipais
de 2020. No entanto, o desempenho de nossa candidatura significou uma importante
vitória política, ao ir para o segundo turno e disputar para vencer uma
campanha que sequer tinha o apoio necessário do conjunto do partido.
Um cenário que contribuiu para
criar as condições do PT seguir como uma alternativa política e eleitoral para
o povo pernambucano em 2022. Com Lula recuperando seus direitos políticos e com
o desafio de derrotar Bolsonaro, seu governo e suas políticas, uma candidatura
petista ao governo de Pernambuco teria imensas chances de contribuir com o
projeto nacional e romper com a política de centro-direita implementada pelo
PSB no estado.
Mas a linha política da maioria do
partido, como já dito anteriormente, é a de retomar a política de conciliação e
a moderação do programa. Assim, mesmo com mais de uma possibilidade de
candidatura petista, e até mesmo com a decisão por uma destas, a maioria da
direção estadual optou por mais uma aliança.
Os motivos alegados, ao menos num
primeiro momento, até aparentaram alguma justeza. Afinal, era em nome do
projeto nacional (especificamente um gesto para a constituição da federação).
No entanto, o próprio PSB, que tinha apresentado a proposta de federação,
recuou dela. E recuou mesmo depois do candidato petista ter feito o “gesto
político” de retirar sua pré-candidatura.
Com isso, a maioria do PT
pernambucano se entregou da luta antes mesmo da batalha começar. E o resultado
é que o partido passou a ter uma posição secundária no debate político local,
sem sequer saber se iria compor a chapa majoritária e vendo a federação que
será constituída tornar-se uma ameaça cada vez maior a sua chapa proporcional.
Ainda assim, há quem diga que isso ajudará na eleição presidencial de Lula.
E é diante deste cenário que nos
encontramos neste final de março.
Com um dos principais quadros
políticos, fruto da recente e inacabada tentativa de renovação, rompendo com
essa linha e saindo do partido para tentar construir uma alternativa conectada
a candidatura presidencial de Lula.
Com o Diretório Nacional aprovando
a federação com o PCdoB e PV, sendo que em Pernambuco o PV está se constituindo
enquanto alternativa de setores da direita para aproveitar a votação do PT e
com isso reduzir a bancada do partido.
E com a direção estadual sem sequer
se reunir e com as instâncias paralisadas.
Não resta, portanto, outra
alternativa para a militância petista que não organizar a resistência na esquerda
do partido e enfrentar os erros e as debilidades da atual direção.
Há um enorme vácuo que precisa ser rapidamente
ocupado, sob pena da política deletéria da maioria esvaziar até mesmo essa
possibilidade.
Nesse sentido, a direção estadual
da tendência petista Articulação de Esquerda deve se organizar para tentar aglutinar a militância petista em torno
das nossas posições e utilizar a campanha eleitoral como instrumento de
organização da esquerda petista.
Mesmo com todas as limitações e
contradições que uma campanha eleitoral burguesa possui, ela tem se mostrado um
momento em que a luta de classes se agudiza e que a polarização política se
aprofunda.
Por isso, precisamos nos preparar para enfrentar o momento que estamos atravessando e criar as
condições para um salto organizativo que permita disputar em melhores
condições os rumos do PT em Pernambuco.
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