1.7.10

Manhã chuvosa

Quando entrei naquele ônibus, pensava apenas em escutar o album da Legião que tinha colocado no MP3. Não esperava que tudo aquilo acontecesse.
Sentei na penúltima cadeira, aquela da parte de trás que fica junto a janela. Observava como cada um dos novos passageiros entrava e se comportavam quando viam as imagens que a BUS TV transmitia. Os que estavam sentados, disfarçavam um certo constrangimento a cada vez que o número de pessoas em pé aumentava. Parece que ficar sentado num ônibus é um privilégio, uma honraria, que aqueles que estão em pé não tiveram chances de alcançar.
Quando o cara grande entrou, imaginei que fosse tentar ficar lá na frete, mas não. Veio para trás e sentou-se atrás de mim. Colocou o pé suspenso no ferro que segura o vidro que nos separa da cobradora. Acho que ela não gostou, mas ele não se importou. Deixou o pé lá por toda a viagem.
Chegando perto do bairro do Itaigara, o ônibus já estava quase vazio. Atrás restavam apenas eu, o cara grande e uma moça . Ela usava uma jaqueta vermelha, tinha o cabelo em coque e um rosto fino, marcado pelo batom cor de cereja e uma leve maquiagem sobre os olhos.
Ele levantou. Ela o seguiu. Um cheio horrível invadiu o ar. Ele tinha soltado um peito.
Não desceram. Sentaram-se lado a lado em um banco pouco atrás do motorista. Fiquei olhando o desenrolar da cena. Eles não pareciam se conhecer, mas já estavam conversando. Deram um beijo. Não entendi o que acontecia.
Continuaram uma conversa de frases curtas. Ela parecia não querer papo, ele parecia rir de alguma coisa. Mais dois pontos a frente, e desceram. Juntos. Cada um com um guarda-chuva. E seguiram para lados opostos na rua.
Enquando olhava tentando entender o que acontecia, olhei pelo resto do ônibus. E lá estava. Um sapato com salto. Rosa. Rodeado de detalhes brancos e pretos. Quase uma oncinha. Como aquilo não tinha chamado minha atenção antes?
O cabelo estava jogado para a frente dos ombros, passando a impressão de que era curto. Me lembrou Ana Paula Maich. Depois de olhar com mais interesse e ver que ela não parava de mexer nos cabelos ainda molhados, talvez pela chuva, ou talvez por ter acabado de sair de casa, notei que ela se olhava. Claro que se olhava, havia um vidro imenso em sua frente. Ali podia ver seu reflexo, claro, sem detalhes, mas o suficiente para imaginar cada contorno do seu rosto. Era bonita. Uma pele clara, sensível, sem maquiagem. Um nariz fino.
Passou pela minha cabeça a possibilidade dela estar me observando pelo reflexo. Não estava. Sua única preocupação era passar a mão pelo cabelo, arrumar e desarrumar a franja. O cabelo já estava quase seco.
Quando chegávamos perto do último ponto, onde eu iria descer, ela levantou. Não olhou para trás num primeiro momento, apenas levantou a calça com a ponta dos dedos e ajeitou o cabelo uma última vez. Passei por era antes que conseguisse sair do meio das cadeiras. Olhei rapidamente. Não tinha absolutamente nenhum traço daqueles que meus olhos viam no vidro.
Desceu, abriu o guarda-chuva e foi embora. Olhou para trás depois de atravesar a rua. Seguiu.