Refundado em 1985, depois ter sido cassado pela ditadura militar em 1965, o Partido Socialista Brasileiro (PSB) sempre teve uma grande influência na política pernambucana. Não à toa que desde 1993 todos os presidentes nacionais do partido foram pernambucanos: Miguel Arraes, de 1993 à 2005; Eduardo Campos, de 2005 à 2014; e Carlos Siqueira, de 2014 até o momento em 2022.
Mesmo
tendo sido refundado conservando seu programa original de 1947, de caráter
socialista e democrático, o novo PSB nunca foi exatamente o mesmo daquelas
lideranças sindicais e das ligas camponesas do período pré-golpe de 1964. Como
ocorreria com outros partidos da esquerda brasileira ao longo da “Nova
República”, a dimensão da atuação institucional e da disputa eleitoral cresceu
em importância frente à luta social e a mobilização popular.
Basta
conferir o próprio resumo da história do partido, apresentado em seu site
oficial (https://www.psb40.org.br/quem-somos/nossa-historia-2/), para perceber que os grandes marcos da atuação do
PSB a partir de sua refundação são medidos através das eleições, com a
conquista de governos estaduais e mandatos parlamentares, além da participação em
disputas presidenciais.
Entretanto,
durante boa parte do período pós-refundação, o PSB adotou posições que o
caracterizaram nacionalmente enquanto um partido de centro-esquerda. Contribuiu
para essa caracterização muito mais sua história do que efetivamente as
políticas que passou a implementar nos estados governados ou nas votações de
suas bancadas.
Mas
essa caracterização passa a ser alterada no momento em que o partido caminha
para o rompimento, e efetivamente rompe, com os governos petistas em 2013, na
esteira da implementação de uma política de parcerias público-privadas e
privatizações no campo da saúde em seus governos estaduais.
Mesmo
que em outros momento o PSB tenha se afastado do campo democrático-popular, são
as posições adotadas a partir de 2013 que o distanciam imensamente da
caracterização de partido de centro-esquerda. A partir daí, em 2014, o partido
lança uma candidatura presidencial em oposição a candidatura da presidenta
Dilma Rousseff e no segundo turno das eleições decide apoiar o candidato tucano
Aécio Neves, que defendia um programa de privatizações, independência do banco
central e reformas neoliberais.
Mesmo
com a vitória de Dilma, a Comissão Executiva Nacional do PSB aprovou, por
unanimidade, uma postura de independência em relação ao governo federal e no
período seguinte se somou às fileiras dos movimentos golpistas que ocorreram em
2016. De forma explícita e declarada, o presidente nacional do partido chegou a
publicar artigo na Folha de São Paulo no dia 14 de abril de 2016 que encerrava
dizendo:
“[...] não há dúvida
de que ao descalabro governamental somam-se aspectos legais. A inaceitável narrativa do
"golpe" beira o ridículo. Diante desta sombria realidade, a dinâmica política impõe ao PSB apoiar
o processo de impeachment que ora tramita na Câmara dos Deputados,
única saída constitucional e legal, no momento, para que nosso país tenha um
governo de transição, a exemplo do que realizou o presidente Itamar Franco. Um
governo que coloque o país nos trilhos e inicie a tarefa de reconstrução
nacional, unindo a nação e promovendo a necessária coesão social e política, visando enfrentar a herança, esta sim
maldita, do atual governo”.
No dia 11 de abril
daquele ano a Comissão Executiva Nacional do PSB tinha aprovado a recomendação
para que as bancadas do partido na Câmara e no Senado votassem pelo impeachment
da presidenta Dilma. Assim, 29 dos 32 deputados federais do PSB votaram a favor
do golpe contra a presidenta Dilma na votação do impeachment na Câmara dos
Deputados. Foram 367 votos a favor do impeachment, sendo que eram necessários
342 votos para seu prosseguimento. Sem os votos do PSB, teriam sido 338. No
Senado, 5 dos 7 Senadores votaram pela condenação da presidenta Dilma.
Assim, com suas
digitais no golpe, entre maio de 2016 e abril de 2018, o PSB passou a integrar
o governo de Michel Temer, ocupando o ministério de Minas e Energia com o
pernambucano Fernando Bezerra Coelho Filho. Da mesma forma, parte da bancada do
partido seguiu votando nas reformas neoliberais propostas pelo governo Temer.
Na votação da PEC
que instituiu o Teto de Gastos, que congelou os investimentos públicos em saúde
e educação por vinte anos, 22 dos 32 deputados federais do PSB votaram
favoravelmente. No texto base da reforma trabalhista, 14 dos 30 deputados
federais do PSB que participaram da votação, disseram sim ao projeto. Já no
projeto de lei que ampliou a terceirização, dos 21 deputados do PSB que
participaram da votação, 11 votaram favoravelmente a proposta.
Ou seja, quando
não se estabeleceu uma maioria na bancada em favor das reformas neoliberais,
cerca de metade dos parlamentares do partido votou de forma fiel a elas. Além
disso, o papel do ministro do PSB no governo Temer foi de protagonismo na
defesa das privatizações do setor energético, que foram preparadas naquele
momento e vieram a se concretizar principalmente com a eleição de Jair
Bolsonaro.
Sobre este fato,
assim como fez de 2002, 2006 e 2014, o PSB não compôs a coligação da
candidatura do PT à presidência da República. Em 2002 e 2014 apresentaram
candidatura própria, primeiro com Anthony Garotinho e depois com Eduardo
Campos. Em 2006 apoiam a candidatura de Lula sem compor oficialmente a coligação.
E em 2018, mesmo diante da ameaça bolsonarista, o PSB exigiu que o PT retirasse
sua candidatura ao governo de Pernambuco em troca da sua... neutralidade
nacional.
E efetivamente foi
isso que ocorreu. A candidatura de Lula e depois de Fernando Haddad não pôde
contar sequer com o tempo de TV do PSB, pois a opção feita pelo partido foi de
ficar neutro diante da ameaça neofacista de Bolsonaro. Além disso, em alguns
estados, como no caso de São Paulo, a opção das candidaturas do PSB foi de não
fazer campanha para o petista Fernando Haddad.
Durante o governo
Bolsonaro, há digitais do PSB também nas reformas ultraliberais encabeçadas por
ele e Paulo Guedes, como na votação da Reforma da Previdência, quando 11
deputados federais do PSB votaram favoravelmente ao projeto. Em outras votações
favoráveis ao governo Bolsonaro e contra os interesses do povo, parte da
bancada do PSB entregou seus votos, como na PEC dos Precatórios, quando 11
deputados do partido votaram sim, na privatização da Eletrobrás com 5 votos
favoráveis e 3 votos a favor da privatização dos Correios.
Além disso, no
início do primeiro ano do governo Bolsonaro, o PSB agiu para constituir um
bloco de oposição sem o PT, conformando um bloco apenas com PDT e PCdoB. E nas
eleições municipais de 2020 encabeçou algumas das campanhas com maior viés
antipetista, como foi a realizada em Recife contra a candidatura de Marília
Arraes, quando foram espalhados cartazes na cidade e feitas inserções de TV
atacando o PT, Gleisi e outros dirigentes petistas.
É no mínimo de
causar estranheza que, diante de todos esses fatos, parta do PSB no final de
2021 a proposta de realizar uma federação partidária com o PT. Ora, se em 2018
não quiseram compor a coligação do PT contra Bolsonaro; se em 2019 sequer
quiseram compor o bloco de oposição na Câmara dos Deputados junto com o PT; se em
2020 fizeram uma das maiores campanhas antipetistas das eleições municipais; por
que proporiam em 2021 uma Federação Partidária com o PT, que significa
funcionar durante quatro anos como se um partido fosse?
Convenhamos que esse
cavalo-de-pau foi, no mínimo, de causar estranheza. No entanto, as coisas foram
ficando mais nítidas com o passar do tempo. Afinal, a proposta de federação
apresentada cumpre o duplo papel de favorecer eleitoralmente os partidos
federados e, ao mesmo tempo, enfraquecer o... PT.
Além disso, desde que
a proposta do PSB foi apresentada, têm sido reincidentes as declarações de
representantes do partido sobre reduzir ou limitar a influência do PT na
federação. A ponto de se tratar, nesse começo de fevereiro, de ideias como o
direito de veto do partido que tenha pelo menos 15% da composição do colegiado
ou a contrariedade com a proposta de proporcionalidade pelo tamanho das
bancadas no Congresso Nacional.
Já ficou nítido
que a proposta de Federação Partidária com o PSB terá imensas implicações
negativas para o PT. Caso ocorra, ela mudará significativamente a natura do PT,
de um partido de massas e militante, com instâncias que pressupõem um alto grau
de democracia interna, para um partido onde as bancas parlamentares se tornarão
o centro ativo das disputas políticas e das principais decisões.
Além disso, para
uma Federação com o PSB, que como demonstramos se afastou imensamente de sua
origem de centro-esquerda e que hoje abriga parlamentares e posições de
direita, será preciso realizar concessões programáticas que também mudarão o
caráter e a natureza do PT. Diante dos imensos desafios colocados para um
possível governo Lula, é exatamente o caminho oposto ao das concessões
programáticas que o PT e a esquerda precisam trilhar.
É
em meio a este cenário que estão ocorrendo, também, as discussões sobre a
composição das chapas para as disputas majoritárias deste ano. Em Pernambuco,
diante de uma avaliação ruim do governo Paulo Câmara e de um quadro econômico e
social cada vez pior, que fez Pernambuco ter o maior índice de desemprego do
país no terceiro trimestre de 2021, uma parcela da direção estadual do PT achou
que seria correto apresentar uma candidatura para oferecer como alternativa
para a Frente Popular (bloco de partidos liderados pelo PSB desde 2006).
Acontece
que, agindo como sempre agiu no último período, o PSB ignorou esse pedido da
maioria do PT-PE de retornar para a Frente Popular por meio de uma candidatura,
e decidiu apresentar, pela quinta vez consecutiva, uma candidatura própria ao
governo do estado. Diante dessa negativa, no lugar de apresentar uma
candidatura petista de oposição ao PSB e a Frente Popular, a opção feita pelo
pré-candidato indicado pela maioria do PT foi de retirar sua pré-candidatura
num “gesto político” para o PSB.
E
este é o ponto em que nos encontramos agora. Nacionalmente, com o PSB agindo
para reduzir ao máximo o tamanho do PT e sua influência nas decisões de uma
possível federação; exigindo apoio à suas candidaturas em Pernambuco, Espírito
Santo, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro; e cobrando “reciprocidade”
do PT.
Em
Pernambuco, agiu inicialmente levantando vetos a nomes do PT para composição da
chapa majoritária; tentando recuperar parte da aprovação perdida; e vendo
crescer setores das oligarquias da direita mais tradicional que foram
fortalecidas e ganharam musculatura dentro do PSB, como é o caso de Raquel Lyra
e Miguel Coelho. Ambos são pré-candidatos ao Governo do Estado pelo PSDB e pelo
DEM, respectivamente, e foram do PSB até recentemente: Raquel até 2016 e Miguel
até 2019.
Nesse
cenário nada fácil e tão pouco definido, cabe ao Partido dos Trabalhadores
agir. O correto seria o PT apresentar uma candidatura de oposição ao governo do
PSB. Infelizmente, essa alternativa parece cada vez menos provável diante das
tratativas nacionais para composição da chapa presidencial de Lula.
Prevalecendo,
portanto, a tática de composição com a Frente Popular em Pernambuco, na
perspectiva de ter o PSB na coligação nacional da chapa presidencial de Lula, a
presença do PT na chapa estadual do PSB precisa ser na melhor condição para o
partido. Nesse momento, essa posição significa a indicação da candidatura ao
Senado.
É
o PT quem reúne as melhores condições e os quadros políticos com maior
envergadura, como é o caso da deputada federal Marília Arraes, para canalizar em
Pernambuco a política que será defendida nacionalmente pela candidatura de
Lula. Precisaremos de uma candidatura que faça a defesa da revogação das
reformas neoliberais, do fim do teto de gastos e da ampliação dos investimentos
públicos em saúde e educação.
Esse precisa ser o tom da campanha em 2022, num movimento nacional que trave a disputa política, cultural e ideológica em todos os setores da classe trabalhadora. Em Pernambuco, é uma candidatura majoritária petista que possibilitará fazer esse enfrentamento, elegendo um programa que tenha sustentação nacional e que seja capaz de desfazer tudo que foi feito pela direita e seus aliados desde o golpe de 2016. Esse deve ser o papel do PT e da militância do partido. Se o PSB será um aliado, cabe a eles definir.
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