O ano de 2024 chegou e com ele expectativas e esperanças de dias melhores para Petrolina, Pernambuco e o Brasil. Um ano após os atos golpistas de 08 de janeiro de 2023, podemos celebrar as conquistas obtidas em um ano do novo governo Lula e a capacidade de resistência da classe trabalhadora brasileira.
Derrotar eleitoralmente o fascismo (mas não politicamente nem socialmente) exigiu muito de todas e todos que lutaram pela democracia. Talvez por isso, muitas e muitos sintam que é preciso descansar, se recolher um pouco e baixar a guarda. Mas a batalha eleitoral de 2022 não encerrou a longa guerra que ainda estamos travando contra a extrema-direita e a direita tradicional, contra o neoliberalismo, o fascismo, o imperialismo e as forças atrasadas do conservadorismo.
Neste ano de 2024 novas batalhas se apresentam. Entre muitas delas, é preciso ampliar a sustentação ao governo Lula, ao mesmo tempo que se trava a disputa pelos seus rumos contra o centrão, a direita e parte dos que buscam conciliar com estes e com seu programa; é necessário enfrentar a extrema-direita armada, violenta e golpista; é fundamental ampliar a capacidade de mobilização das organizações populares e de esquerda; e preparar o PT e as forças do campo democrático popular para a dificílima eleição municipal de outubro.
É tendo esta visão de conjunto, que quero compartilhar um olhar para nossa cidade e região. Afinal de contas, Petrolina agora é a terceira maior cidade do estado de Pernambuco (conforme dados do Censo 2022 do IBGE) e a disputa eleitoral de 2024 se dará em condições extremamente peculiares.
A primeira delas é que após décadas de uma hegemonia tacanha da oligarquia local, mantida à base de todo o tipo de fisiologismo, mesquinhez e coronelismo possíveis, a cidade vislumbra a real possibilidade de um segundo turno. De um lado, com a candidatura oficial da família Coelho (que desta vez não carregará o sobrenome na urna). Do outro, uma dúvida: uma candidatura apoiada pela governadora tucana Raquel Lyra ou uma candidatura da esquerda e do campo democrático popular?
Há quem duvide da possibilidade de um segundo turno. Assim como há quem duvide da possibilidade de uma candidatura petista chegar ao segundo turno, caso este se concretize. Não compartilho de nenhuma dessas dúvidas, pois acredito que existem condições objetivas que permitem ao PT disputar de verdade as eleições municipais de 2024 em Petrolina.
Esta perspectiva me parece correta por uma segunda condição peculiar das eleições de 2024 na cidade: a conjuntura nacional e estadual. Em 2020 tivemos uma eleição absolutamente atípica, realizada em meio a pandemia de covid-19, com restrições de campanha eleitoral e com a oligarquia Coelho vitaminada pelos recursos do orçamento secreto do governo Bolsonaro, de quem o patriarca da família era líder no Senado Federal.
Além disso, já vivíamos naquele momento um esgarçamento do governo estadual do PSB, que concentrou suas energias no Recife, onde João Campos mergulhou no esgoto do antipetismo para atacar a candidatura do PT e enfraquecer o partido em todo o estado.
Mas de lá pra cá, muita água passou por de baixo dessa ponte: o PSB perdeu o governo do estado; a direita tradicional se fortaleceu com Raquel Lyra; o PT perdeu sua principal figura pública de renovação no estado; a maioria do PT recompôs com o PSB e hoje está na prefeitura do Recife; há petistas até mesmo no governo do PSDB, contando com o apoio da governadora aos seus projetos locais; e por fim, mas não menos importante, elegemos Lula presidente da República.
De forma contraditória, mesmo com a grande votação do presidente Lula no estado, a reeleição do deputado federal Carlos Veras, a eleição da Senadora Teresa Leitão e a manutenção da banca do partido na Assembleia Legislativa, o partido não saiu fortalecido. Além de todos os problemas enfrentados na campanha e a perda de um mandato federal na Câmara, o PT pernambucano ficou fora do primeiro escalação do governo Lula, enquanto partidos como o PCdoB, PSD e Republicanos lideram ministérios, e outros partidos do centrão e da direita ocupam espaços estratégicos.
Em Petrolina, Raquel Lyra reuniu boa parte da “oposição” à fração da família Coelho de Miguel e Fernando Bezerra em sua base, com a presença de Guilherme Coelho e Lucinha Mota, mas também com petistas como Dulcicleide Amorim, e outras figuras como o filho do ex-prefeito Júlio Lóssio. Do outro lado, Antônio Coelho está no governo João Campos, em Recife, onde também está parte do PT. Numa costura que pode levar a chapa 2026 de João Campos governador, com Miguel Coelho e Humberto Costa Senadores.
Mas obvio que isso pode mudar em semanas ou meses, com o PT recifense decidindo um por uma candidatura própria, o que pode levar também a uma candidatura petista em 2026 ao governo do estado; ou com a família Coelho mudando de lado mais uma vez e aventurando algo no Recife; ou até mesmo com o surgimento de novos nomes com viabilidade em qualquer uma das duas cidades.
Como é possível perceber, uma grau de confusão gigantesco, onde tudo pode acontecer.
E se tudo pode acontecer, por qual razão o PT não pode ir para o segundo turno em Petrolina e vencer as eleições?
Isso pode ocorrer por vários motivos, mas me parece que uma candidatura petista na atual conjuntura possui maiores e melhores condições de disputa que em diversos outros momentos da história recente (além de 2020 e a pandemia, não podemos esquecer de 2016 e o golpe contra a presidenta Dilma).
Mas para ter qualquer perspectiva de êxito, as forças do campo democrático popular em Petrolina precisam avançar em torno de um projeto alternativo para a cidade, que não esteja atrelado ou cooptado pela disputa de 2026 entre João Campos e Raquel Lyra para o governo do estado.
Não será com o apoio de um ou de outro que um projeto petista será vitorioso na cidade. Por isso precisamos de uma candidatura que seja capaz de projetar uma alternativa à oligarquia local e a essa falsa polarização para 2026.
Infelizmente não contamos hoje com uma grande quantidade de quadros públicos e lideranças de massas que desempenhem maior protagonismo político na cidade. Com as reincidentes derrotas eleitorais e a queda na mobilização popular experimentada principalmente a partir de 2019/2020, as forças de esquerda e progressistas viveram um descenso em sua organização e também no desempenho eleitoral.
Nesse cenário, não são muitas as possibilidades de candidatura colocadas. Mas há tempo e condições para viabilizarmos uma candidatura competitiva, com base ideológica e que demarque um campo de classe na cidade. Essa candidatura precisa ser expressa pelo PT, que deve conduzir a Federação Brasil da Esperança na cidade.
Todavia, a Federação também nos cria dificuldades, principalmente no que diz respeito a disputa proporcional. A disputa na Câmara de Vereadores não pode ser secundarizada, sob pena de termos mais uma legislatura com sub representação do PT e da esquerda. Por este motivo, acredito que o PT deve assumir a tarefa de organizar uma chapa competitiva, tendo maior espaço e buscando ampliar a representação do partido na Câmara. É preciso acumular forças e parar de dispersa-las.
Petrolina cresceu e cresceram também os seus problemas. Enfrentar os grandes problemas da cidade é uma tarefa fundamental para a esquerda, que nenhuma outra força política está disposta a fazer. E se não aproveitarmos este momento, com Lula presidente, esta pequena janela de oportunidade pode se fechar.
Em 2023 não conseguimos colocar o partido no ritmo adequado para cumprir esta tarefa. Mas ainda há tempo. Que comecemos 2023 colocando o partido nos trilhos.
Patrick Campos, membro do Diretório Nacional e vice-presidente do PT em Petrolina.
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