[Texto originalmente publicado na edição de fevereiro do jornal Página 13]
Bolsonaro e a extrema-direita conseguiram mobilizar, ao longo dos últimos anos, uma expressiva força política e social através da constante disputa cultural e ideológica. Eles foram favorecidos pelo aprofundamento da crise econômica iniciada em 2008 e pelas condições que a própria direita impôs ao Brasil desde a preparação do golpe de 2016, com o desemprego crescente, a perda de direitos trabalhistas e sociais, e a piora nas condições de vida de milhões de trabalhadoras e trabalhadores.
Mesmo
apresentando um programa que apontava para o aprofundamento da crise para os
mais pobres, com privatizações, reformas ultraliberais e redução das liberdades
democráticas e da proteção social, parcelas da classe trabalhadora foram ganhas
pelo bolsonarismo. Existem diversos fatores que explicam, em maior ou menor
medida, esse movimento à direita, como a força do conservadorismo nas classes
populares, a situação internacional, a fragilização das organizações populares
de esquerda, a perda de território para organizações fundamentalistas, para o
crime e a milícia, os erros cometidos pelos governos petistas e os anos de
ataques da direita através do oligopólio da mídia e do judiciário.
Mas
há também uma dimensão moral no programa conservador bolsonarista que cumpriu
um importante papel na disputa travada. Por um lado, a chamada “pauta moral” ou
dos costumes foi atiçada contra a esquerda, num movimento de caracterização da
direita como defensora de supostos “bons valores” (cristãos, heteronormativos e
etc.). Por outro, se buscou constituir uma determinada moralidade pelo discurso
“contra” a corrupção e a criminalização do PT.
Tudo
isso contribuiu para que a extrema-direita e o bolsonarismo conseguissem se
apresentar, por exemplo, como uma alternativa antissistema, no momento em que
crescia em parte da população a compressão de que a piora das condições de vida
estava diretamente ligada ao governo, aos políticos e as instituições.
Mas
passados mais de três anos do início do governo Bolsonaro, a situação econômica
e social piorou brutalmente; são mais de 620 mil pessoas mortas, milhares dessas
mortes devido ao negacionismo que levou a falta de vacinas; Bolsonaro e sua
família tornaram ainda mais público que são parte integrante do sistema; e os
casos de corrupção, como o superfaturamento de vacinas e o dinheiro escondido
para comprar apoio no congresso e financiar aliados, se tornaram cotidianos.
Ainda
assim, o governo segue com o apoio de aproximadamente 25% dos eleitores. Há
quem considere esse percentual baixo, principalmente quando colocado ao lado
das intenções de voto que, hoje, Lula tem registrado. Com isso, acabam subestimando
a força do bolsonarismo, que apesar de tudo que já fez, ainda possui cerca de ¼
do eleitorado.
Mas
além disso, deixam em segundo plano o impacto que a influência do bolsonarismo
promoveu em setores da classe trabalhadora. São anos de um trabalho cotidiano
de difusão de mentiras, mas também da defesa de posições conservadoras, racistas,
machistas, lgbtfóbicas, individualistas e de uma meritocracia egoísta.
Enfrentar
essa dimensão moral do programa bolsonarista será fundamental para derrotar a
extrema-direita. O estrago causado na vida de milhões de pessoas desde o golpe
de 2016 foi imenso e, mesmo que muitos considerem que Lula pode devolver aquilo
que foi tirado, essa compreensão não ocorre de forma automática e nem se dará
apenas por meio de publicidade e marketing eleitoral.
Por
isso, o programa que o PT e a campanha de Lula devem apresentar para as
eleições de 2022 precisa ter muita nitidez em todas as suas dimensões,
inclusive no campo “moral”. E nesse aspecto as posições não podem esperar a
campanha eleitoral para serem apresentadas.
A
defesa de valores como a solidariedade, o coletivismo, a alteridade, a
tolerância e de princípios como a justiça social precisarão ser trabalhados
cotidianamente. Mas isso não será fácil, principalmente num cenário em que
milhões de pessoas não tem o que compartilhar, o que comer, onde morar e que
estão lutando todos os dias, muitas vezes uns contra os outros, para
sobreviver.
No
entanto, se quisermos efetivamente dar conta de um programa de transformação e
reconstrução do país, que desfaça tudo aquilo que foi feito pelo menos desde o
golpe de 2016 e que avance com reformas estruturais, alguns desses valores
precisarão ser reforçados em amplos setores da classe trabalhadora.
Isso
não será fácil, e será muito mais difícil de ser feito se a chapa presidencial
de Lula for composta por alguém que expressa exatamente o oposto dessas ideias,
como o “ex-tucano”, golpista, conservador, espancador de professor e
privatista, Geraldo Alckmin. Ou ainda por meio de uma federação partidária que
reúna partidos de centro-direita que foram cumplices do golpe de 2016 e da
aprovação das reformas neoliberais.
O
programa precisa expressar nossa disposição e capacidade de enfrentar o sistema
financeiro, o oligopólio dos meios de comunicação, o latifúndio, o imperialismo
e de garantir empregos, comida, moradia, terra, saúde, educação, proteção
social e dignidade para o povo. Um programa, portanto, que tenha moral para
convencer as trabalhadoras e os trabalhadores da sua necessidade e urgência. Ou
fazemos isso, adotando uma tática de mobilização de massas, ou podemos ver
novamente a extrema-direita aproveitar a degradação da vida do povo para, a
partir do que as pessoas têm de pior, mobilizá-las contra seus próprios
interesses.
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