18.6.15

Um golpe contra o ECA

Está em curso no país uma ofensiva contra os direitos e garantias individuais. As cláusulas pétreas de nossa Constituição vão se dissolvendo de forma conveniente conforme os interesses daqueles que manobram o aparato do legislativo e do judiciário.
O novo golpe para retirada de direitos se abate sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Criado em 1990, dois anos após a promulgação da Constituição Federal, o Estatuto versa sobre o tratamento legal e social e principalmente a proteção que deve ser dada às crianças e adolescentes.
Seu objetivo é primordialmente o de garantir a proteção de crianças e adolescentes como estabelece seu próprio artigo 3º ao afirmar que “A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade”.

Todavia, devido a retomada da pauta sobre a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos atiçada pelos setores reacionários, vem sendo construída pelo Governo a possibilidade de mudanças no ECA para que se amplie de 3 para 8 anos o tempo de reclusão dos jovens nos casos do cometimento de crimes hediondos.
A proposta visa ser um intermédio para que nem se reduza a idade penal, mas que tão pouco não sejam dadas respostas aos que pedem mais punição. A questão, no entanto, precisa ser entendida como um retrocesso de grandes proporções nas garantias e direitos individuais da juventude.
Primeiro por se tratar de uma proposta de modificação do Estatuto da Criança e do Adolescente, que como já demonstrado, tem o objetivo de garantir a proteção das crianças e dos adolescentes e não servir de código penal específico para punir de maneira “mais qualificada” estes indivíduos.
Segundo que não há absolutamente nenhum dado que abra brecha para o entendimento que a ampliação do tempo de reclusão implique na diminuição dos índices de criminalidade.
Terceiro que um governo que foi responsável por ajudar a construir e aprovar a menos de dois anos o Estatuto da Juventude, que visa, entre outras, o “reconhecimento do jovem como sujeito de direitos universais, geracionais e singulares” e a “promoção da vida segura, da cultura da paz, da solidariedade e da não discriminação”, não pode ser o mesmo que agora acredita que mais punição e mais estado policial é a solução para diminuir os índices de infrações e crimes na juventude.
É preciso exatamente o contrário. A ampliação do estado policial implica justamente no aumento da violência e das mortes justamente dessa mesma população que hoje se pensa em prender e que tem classe, cor e endereço: A juventude negra das periferias.
A solução passa pela ampliação do Estado Social, com a efetiva garantia dos direitos individuais e fundamentais já previstos tanto na Constituição Federal quanto nos Estatutos da Criança e do Adolescente e agora da Juventude.
Ampliar o tempo de reclusão de 3 para 8 anos, ainda mais por meio de mudanças no ECA é interromper um processo que vinha avançando, mesmo que lentamente, de uma agenda positiva de Direitos. E mais que uma interrupção, significa o início de uma agenda de retiradas de direitos, algo extramente perigoso num momento em que as forças reacionárias atacam por todos os lados.

É preciso impedir este retrocesso. E como em diversas outras situações, essa luta será menos difícil se tivermos o Governo do lado da defesa dos direitos e não do outro lado.

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