*Por
Patrick Campos
Segundo
o IBGE a população estimada em 2015 para Petrolina era de pouco mais de
trezentos e trinta mil habitantes. Aplicando sobre este número o percentual
médio da população jovem no Brasil e em Pernambuco, que gira em torno dos vinte
e cinco por cento, podemos ter uma ideia aproximada da quantidade de pessoas na
faixa etária entre 15 e 29 anos em nossa cidade.
Somos
cerca de oitenta mil jovens, que assim como em todo o país, dão concretude ao
período que ainda vivemos do chamado “bônus demográfico”. Termo que foi forjado
para afirmar que o período atual deve ser extremamente aproveitado e explorado,
pois é passageiro e em alguns anos a população jovem começará a diminuir em
relação ao contingente populacional não jovem.
É
imprescindível, pois, que façamos o máximo de investimento possível agora em
políticas de educação, saúde e cultura, para que tenhamos uma geração saudável,
com alto nível de formação profissional e intelectual, que seja capaz de
sustentar a inversão da pirâmide social do país que crescerá em número de pessoas
economicamente dependentes e não ativas.
Dessa
maneira, o debate sobre as políticas públicas de juventude tiveram grande
crescimento ao longo da última década, principalmente em torno de temas
voltados a inserção do jovem no mundo do trabalho e no ensino técnico e superior. Mas um
debate pouco travado, mas muito caro para quem deseja pensar de maneira
estratégica o papel da juventude é sua relação com a cidade.
Especialmente
numa cidade como Petrolina, que ao longo dos últimos doze anos se consolidou,
para além de um polo político-econômico, como um polo universitário de
Pernambuco e região, é fundamental preparar e debater a cidade para as mudanças
decorrentes deste novo período.
Além
do crescimento populacional típico, são milhares de novos habitantes que
continuam chegando à cidade e em um número de jovens cada vez maior, seja para
estudar, seja em busca de oportunidades de trabalho.
Infelizmente
a cidade não se preparou e segue sem estar preparada para o crescimento que
tende a continuar. De maneira que, viver em Petrolina, principalmente para quem
é jovem e morador dos bairros mais distantes do centro da cidade, é um desafio
recheado de dificuldades que muitas vezes inviabilizam o próprio direito de “viver
a cidade”.
Começando
pela dificuldade de locomoção, com um dos piores e mais caros serviços de
transporte público do país. Não é de hoje que se denuncia a alta taxa de
exploração pelo cartel que há décadas controla o sistema de transporte coletivo
na cidade. Basta relembrar os embates travados após a reconstrução da União dos
Estudantes Secundaristas de Petrolina (UESP) em 2005, onde estudantes foram
perseguidos e ameaçados por lutarem contra o aumento abusivo da tarifa e exigir
a apresentação das planilhas que jamais foram vistas.
A
luta dos secundaristas pelo direito ao transporte público e de qualidade marcou
história e revelou há mais de dez anos os limites, o esgotamento e a grande
necessidade de mudar o sistema. No entanto, de lá pra cá, o valor da passagem
apenas aumentou, mas sem um único avanço ou melhoria significativa na qualidade
dos serviços.
Sem
transporte coletivo de qualidade, as distâncias numa cidade cada vez maior
tornam-se cada vez mais instransponíveis. São poucas as pessoas que podem
desembolsar quase oito reais para sair e voltar pra casa, isso se precisar
pegar apenas um ônibus. E com certeza a juventude trabalhadora, que ocupa os
mais precários postos de trabalho no comércio e na rede de serviços, com os
mais baixos salários e que precisa conciliar o emprego, com o estudo e com a
família, não podem de forma alguma pagar essa conta.
Tratamento
semelhante tem ocorrido com os equipamentos públicos de cultura, esporte e
lazer. Não é apenas o fato absurdo de uma cidade com mais de trezentos mil
habitantes, numa região metropolitana que compreende mais de meio milhão de
pessoas numa área de constante temperatura elevada, ter apenas um parque
arborizado. Mas é o fato deste sequer conseguir ser apropriado pela maioria da
população, com exceção dos moradores do entorno.
Por
mais que novos equipamentos públicos tenham sido construídos, como academias e um
centro voltado para a juventude, estes não possuem a dimensão para atender as
necessidades sequer de curto, muito menos de médio e longo prazo. Não parece
fazer parte do pensamento estratégico de quem ocupou-se em pensar a cidade
garantir que ela esteja por completo disponível à toda a população.
Parece
muito com o pensamento de quem realiza obras viárias pensando apenas em quem
anda de carro e visando unicamente organizar os veículos nas ruas e avenidas
para que caibam cada vez mais. Ou seja, é um pensamento extremamente limitado e
imediatista que não dá conta de projetar uma mudança estrutural e duradoura,
que envolva a diminuição da quantidade de veículos individuais motorizados e a
ampliação do uso de transportes coletivos ou individuais não motorizados.
Para
não deixar de utilizar os “exemplos de casa”, é como o caso do jamais
construído Teatro Municipal. O que seria um dos mais importantes equipamentos
públicos de cultura de uma cidade que tem a arte pulsando incessantemente em
suas veias, jamais saiu do papel (ou do buraco), sem sequer apresentar
alternativas viáveis como as iniciativas de anfiteatros ou centros de cultura
nos bairros.
Em
todos estes casos, há uma nítida concentração dos poucos espaços e equipamentos
públicos nas áreas mais centrais da cidade, o que até poderia ser uma política
funcional em um lugar de distâncias menores, mas que não é o caso de Petrolina.
Assim,
especialmente para a população jovem, que não apenas têm a necessidade, mas o
direito aos “equipamentos públicos que promovam o acesso à produção
cultural, à prática esportiva, à mobilidade territorial e à fruição do tempo
livre”, assegurado no Estatuto da
Juventude, fazer o debate sobre o direito a cidade deve estar na ordem do dia.
Com a reflexão de que, continuando
no mesmo caminho, vamos cristalizar as coisas como estão e em pouco tempo teremos
uma barreira insuperável entre duas cidades dentro de uma. De um lado uma pequena
cidade pensada para proprietários de automóveis que pagam por todos os seus
serviços e de outro uma grande cidade completamente privada de direitos.
*
Patrick é estudante de Direito e foi diretor da União Nacional dos Estudantes
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