9.1.24

2024 chegou! Desafios e perspectivas para o PT e a esquerda em Petrolina

O ano de 2024 chegou e com ele expectativas e esperanças de dias melhores para Petrolina, Pernambuco e o Brasil. Um ano após os atos golpistas de 08 de janeiro de 2023, podemos celebrar as conquistas obtidas em um ano do novo governo Lula e a capacidade de resistência da classe trabalhadora brasileira.

Derrotar eleitoralmente o fascismo (mas não politicamente nem socialmente) exigiu muito de todas e todos que lutaram pela democracia. Talvez por isso, muitas e muitos sintam que é preciso descansar, se recolher um pouco e baixar a guarda. Mas a batalha eleitoral de 2022 não encerrou a longa guerra que ainda estamos travando contra a extrema-direita e a direita tradicional, contra o neoliberalismo, o fascismo, o imperialismo e as forças atrasadas do conservadorismo.

Neste ano de 2024 novas batalhas se apresentam. Entre muitas delas, é preciso ampliar a sustentação ao governo Lula, ao mesmo tempo que se trava a disputa pelos seus rumos contra o centrão, a direita e parte dos que buscam conciliar com estes e com seu programa; é necessário enfrentar a extrema-direita armada, violenta e golpista; é fundamental ampliar a capacidade de mobilização das organizações populares e de esquerda; e preparar o PT e as forças do campo democrático popular para a dificílima eleição municipal de outubro.

É tendo esta visão de conjunto, que quero compartilhar um olhar para nossa cidade e região. Afinal de contas, Petrolina agora é a terceira maior cidade do estado de Pernambuco (conforme dados do Censo 2022 do IBGE) e a disputa eleitoral de 2024 se dará em condições extremamente peculiares.

A primeira delas é que após décadas de uma hegemonia tacanha da oligarquia local, mantida à base de todo o tipo de fisiologismo, mesquinhez e coronelismo possíveis, a cidade vislumbra a real possibilidade de um segundo turno. De um lado, com a candidatura oficial da família Coelho (que desta vez não carregará o sobrenome na urna). Do outro, uma dúvida: uma candidatura apoiada pela governadora tucana Raquel Lyra ou uma candidatura da esquerda e do campo democrático popular?

Há quem duvide da possibilidade de um segundo turno. Assim como há quem duvide da possibilidade de uma candidatura petista chegar ao segundo turno, caso este se concretize. Não compartilho de nenhuma dessas dúvidas, pois acredito que existem condições objetivas que permitem ao PT disputar de verdade as eleições municipais de 2024 em Petrolina.

Esta perspectiva me parece correta por uma segunda condição peculiar das eleições de 2024 na cidade: a conjuntura nacional e estadual. Em 2020 tivemos uma eleição absolutamente atípica, realizada em meio a pandemia de covid-19, com restrições de campanha eleitoral e com a oligarquia Coelho vitaminada pelos recursos do orçamento secreto do governo Bolsonaro, de quem o patriarca da família era líder no Senado Federal.

Além disso, já vivíamos naquele momento um esgarçamento do governo estadual do PSB, que concentrou suas energias no Recife, onde João Campos mergulhou no esgoto do antipetismo para atacar a candidatura do PT e enfraquecer o partido em todo o estado.

Mas de lá pra cá, muita água passou por de baixo dessa ponte: o PSB perdeu o governo do estado; a direita tradicional se fortaleceu com Raquel Lyra; o PT perdeu sua principal figura pública de renovação no estado; a maioria do PT recompôs com o PSB e hoje está na prefeitura do Recife; há petistas até mesmo no governo do PSDB, contando com o apoio da governadora aos seus projetos locais; e por fim, mas não menos importante, elegemos Lula presidente da República.

De forma contraditória, mesmo com a grande votação do presidente Lula no estado, a reeleição do deputado federal Carlos Veras, a eleição da Senadora Teresa Leitão e a manutenção da banca do partido na Assembleia Legislativa, o partido não saiu fortalecido. Além de todos os problemas enfrentados na campanha e a perda de um mandato federal na Câmara, o PT pernambucano ficou fora do primeiro escalação do governo Lula, enquanto partidos como o PCdoB, PSD e Republicanos lideram ministérios, e outros partidos do centrão e da direita ocupam espaços estratégicos.

Em Petrolina, Raquel Lyra reuniu boa parte da “oposição” à fração da família Coelho de Miguel e Fernando Bezerra em sua base, com a presença de Guilherme Coelho e Lucinha Mota, mas também com petistas como Dulcicleide Amorim, e outras figuras como o filho do ex-prefeito Júlio Lóssio. Do outro lado, Antônio Coelho está no governo João Campos, em Recife, onde também está parte do PT. Numa costura que pode levar a chapa 2026 de João Campos governador, com Miguel Coelho e Humberto Costa Senadores.

Mas obvio que isso pode mudar em semanas ou meses, com o PT recifense decidindo um por uma candidatura própria, o que pode levar também a uma candidatura petista em 2026 ao governo do estado; ou com a família Coelho mudando de lado mais uma vez e aventurando algo no Recife; ou até mesmo com o surgimento de novos nomes com viabilidade em qualquer uma das duas cidades.

Como é possível perceber, uma grau de confusão gigantesco, onde tudo pode acontecer.

E se tudo pode acontecer, por qual razão o PT não pode ir para o segundo turno em Petrolina e vencer as eleições?

Isso pode ocorrer por vários motivos, mas me parece que uma candidatura petista na atual conjuntura possui maiores e melhores condições de disputa que em diversos outros momentos da história recente (além de 2020 e a pandemia, não podemos esquecer de 2016 e o golpe contra a presidenta Dilma).

Mas para ter qualquer perspectiva de êxito, as forças do campo democrático popular em Petrolina precisam avançar em torno de um projeto alternativo para a cidade, que não esteja atrelado ou cooptado pela disputa de 2026 entre João Campos e Raquel Lyra para o governo do estado.

Não será com o apoio de um ou de outro que um projeto petista será vitorioso na cidade. Por isso precisamos de uma candidatura que seja capaz de projetar uma alternativa à oligarquia local e a essa falsa polarização para 2026.

Infelizmente não contamos hoje com uma grande quantidade de quadros públicos e lideranças de massas que desempenhem maior protagonismo político na cidade. Com as reincidentes derrotas eleitorais e a queda na mobilização popular experimentada principalmente a partir de 2019/2020, as forças de esquerda e progressistas viveram um descenso em sua organização e também no desempenho eleitoral.

Nesse cenário, não são muitas as possibilidades de candidatura colocadas. Mas há tempo e condições para viabilizarmos uma candidatura competitiva, com base ideológica e que demarque um campo de classe na cidade. Essa candidatura precisa ser expressa pelo PT, que deve conduzir a Federação Brasil da Esperança na cidade.

Todavia, a Federação também nos cria dificuldades, principalmente no que diz respeito a disputa proporcional. A disputa na Câmara de Vereadores não pode ser secundarizada, sob pena de termos mais uma legislatura com sub representação do PT e da esquerda. Por este motivo, acredito que o PT deve assumir a tarefa de organizar uma chapa competitiva, tendo maior espaço e buscando ampliar a representação do partido na Câmara. É preciso acumular forças e parar de dispersa-las.

Petrolina cresceu e cresceram também os seus problemas. Enfrentar os grandes problemas da cidade é uma tarefa fundamental para a esquerda, que nenhuma outra força política está disposta a fazer. E se não aproveitarmos este momento, com Lula presidente, esta pequena janela de oportunidade pode se fechar.

Em 2023 não conseguimos colocar o partido no ritmo adequado para cumprir esta tarefa. Mas ainda há tempo. Que comecemos 2023 colocando o partido nos trilhos.

 

Patrick Campos, membro do Diretório Nacional e vice-presidente do PT em Petrolina.

31.3.22

O que fazer em Pernambuco? Organizar a esquerda do PT, enfrentar as posições moderadas, derrotar o bolsonarismo e eleger Lula com um programa radical

O espaço para as posições mais à esquerda dentro do PT talvez nunca tenha ficado tão pequeno. Mas não desapareceu, pelo contrário. É possível que agora seja o momento mais necessário para que esse espaço seja reafirmado e defendido.

Após anos de um processo de moderação do programa e de uma política de conciliação, esgotada desde antes do golpe de 2016, o PT vive hoje mais um momento decisivo.

Como derrotar Bolsonaro, o bolsonarismo e o programa ultraliberal, e conseguir eleger Lula, fazê-lo tomar posse, governar e, governando, desfazer tudo aquilo que a direita fez pelo menos desde 2016?

Para alguns, o caminho é a constituição de uma ampla frente “democrática”, que reúna setores da centro-direita e da direita, em torno de um programa moderado, que possibilidade a derrota eleitoral de Bolsonaro e a vitória de Lula para a presidência da República.

Para isso, cabe ter o tucano neoliberal Geraldo Alckmin como vice; cabe constituir uma federação com o PV; cabe abrir mão das candidaturas aos governos estaduais na maior parte do país; e cabe retirar do programa questões como a reindustrialização do país.

O que isso significa? Significa dobrar a aposta naquela política de conciliação que levou ao golpe contra Dilma, a condenação, prisão e interdição de Lula, e ao enfraquecimento das organizações do campo democrático-popular.

Os que defendem esse caminho agitam a bandeira de que “é preciso fazer de tudo para derrotar Bolsonaro”. De fato, precisamos fazer de tudo para derrotar Bolsonaro. Mas não podemos fazer aquilo que leve, junto com ele, as nossas possibilidades de derrotar o seu programa e resistir a ofensiva que virá no dia seguinte.

É por isso que no momento em que o PT está em vias de constituir uma federação que terá um programa ainda mais “tímido” do que aquele do Programa de transformação e reconstrução do Brasil, e que a tática de eleger uma forte bancada petista vai ruindo, algo precisa ser feito.

Se seguirmos o caminho que estamos trilhando atualmente, corremos enormes riscos. Risco de perder a eleição para Bolsonaro. Risco de ver a bancada petista no Congresso Nacional ser tomada de assalto por gente da direita. Risco de perder, sem sequer disputar, governos estaduais. E risco de transformar o maior partido de esquerda da América Latina, numa frente eleitoral com um programa extremamente rebaixado.

Assim, para que isso não aconteça, é preciso que em cada lugar do país, em cada local de trabalho, de moradia e de estudo, a militância petista assuma o protagonismo da luta e da resistência.

Em Pernambuco, pelas decisões equivocadas tomadas pela maioria da direção do partido, as dificuldades foram imensamente ampliadas, mas elas ainda podem ser enfrentadas e superadas.

O PT de Pernambuco sempre teve significativo peso nacional, com um conjunto de quadros experimentados na luta e uma militância que foi capaz de eleger na capital do estado o primeiro operário prefeito, antes do país eleger o primeiro metalúrgico presidente.

No entanto, desde 2012, o partido entrou numa espiral de descenso. A derrota política e eleitoral no Recife; a degeneração dos processos de eleição interna, somada a influência nefasta do PSB; a derrota eleitoral de 2014 (quando não elegemos nenhum deputado federal); e a submissão da maioria do partido às posições mais moderadas, além de acelerar o processo de enfraquecimento do PT, interditaram as possibilidades de renovação de seus quadros e de sua política.

Mas em 2016, no amplo processo de resistência popular ao golpe contra a presidenta Dilma, uma parte do PT pernambucano conseguiu iniciar um processo de renovação de seus quadros dirigentes, como ocorreu com a eleição da vereadora Marília Arraes em Recife e com o protagonismo e jovens militantes nos movimentos sociais e populares por todo o estado.

Esse processo reoxigenou parte do PT e permitiu que tivéssemos, em 2018, a oportunidade de apresentar para o estado uma alternativa política de esquerda. Infelizmente, a tão necessária candidatura petista, aprovada pela maioria dos militantes do partido presentes do encontro de tática eleitoral, não se concretizou.

Com isso, o PT voltou a compor a coalisão da “Frente Popular”, capitaneada pelo PSB, mas sem nenhum protagonismo e ao lado de partidos que foram paulatinamente se posicionando na base de apoio do governo Bolsonaro. O próprio PSB, que já tinha sido decisivo para o impeachment da presidenta Dilma, deixou suas digitais em diversas votações contra a maioria do povo brasileiro.

Na votação da PEC que instituiu o Teto de Gastos, que congelou os investimentos públicos em saúde e educação por vinte anos, 22 dos 32 deputados federais do PSB votaram favoravelmente. No texto base da reforma trabalhista, 14 dos 30 deputados federais do PSB que participaram da votação, disseram sim ao projeto. Já no projeto de lei que ampliou a terceirização, dos 21 deputados do PSB que participaram da votação, 11 votaram favoravelmente a proposta.

E não foi diferente nas eleições municipais de 2020. Na disputa pela prefeitura da cidade do Recife, a campanha do PSB se utilizou contra a candidatura petista do mais puro antipetismo de direita. Além disso, parte significativa da direção do partido se manteve ausente da campanha e, em alguns casos, agiu deliberadamente contra a candidatura do PT e em favor do PSB.

Dessa forma, como ocorreu em todo o país, o PT saiu derrotado eleitoralmente em Pernambuco nas eleições municipais de 2020. No entanto, o desempenho de nossa candidatura significou uma importante vitória política, ao ir para o segundo turno e disputar para vencer uma campanha que sequer tinha o apoio necessário do conjunto do partido.

Um cenário que contribuiu para criar as condições do PT seguir como uma alternativa política e eleitoral para o povo pernambucano em 2022. Com Lula recuperando seus direitos políticos e com o desafio de derrotar Bolsonaro, seu governo e suas políticas, uma candidatura petista ao governo de Pernambuco teria imensas chances de contribuir com o projeto nacional e romper com a política de centro-direita implementada pelo PSB no estado.

Mas a linha política da maioria do partido, como já dito anteriormente, é a de retomar a política de conciliação e a moderação do programa. Assim, mesmo com mais de uma possibilidade de candidatura petista, e até mesmo com a decisão por uma destas, a maioria da direção estadual optou por mais uma aliança.

Os motivos alegados, ao menos num primeiro momento, até aparentaram alguma justeza. Afinal, era em nome do projeto nacional (especificamente um gesto para a constituição da federação). No entanto, o próprio PSB, que tinha apresentado a proposta de federação, recuou dela. E recuou mesmo depois do candidato petista ter feito o “gesto político” de retirar sua pré-candidatura.

Com isso, a maioria do PT pernambucano se entregou da luta antes mesmo da batalha começar. E o resultado é que o partido passou a ter uma posição secundária no debate político local, sem sequer saber se iria compor a chapa majoritária e vendo a federação que será constituída tornar-se uma ameaça cada vez maior a sua chapa proporcional. Ainda assim, há quem diga que isso ajudará na eleição presidencial de Lula.

E é diante deste cenário que nos encontramos neste final de março.

Com um dos principais quadros políticos, fruto da recente e inacabada tentativa de renovação, rompendo com essa linha e saindo do partido para tentar construir uma alternativa conectada a candidatura presidencial de Lula.

Com o Diretório Nacional aprovando a federação com o PCdoB e PV, sendo que em Pernambuco o PV está se constituindo enquanto alternativa de setores da direita para aproveitar a votação do PT e com isso reduzir a bancada do partido.

E com a direção estadual sem sequer se reunir e com as instâncias paralisadas.

Não resta, portanto, outra alternativa para a militância petista que não organizar a resistência na esquerda do partido e enfrentar os erros e as debilidades da atual direção.

Há um enorme vácuo que precisa ser rapidamente ocupado, sob pena da política deletéria da maioria esvaziar até mesmo essa possibilidade.

Nesse sentido, a direção estadual da tendência petista Articulação de Esquerda deve se organizar para tentar aglutinar a militância petista em torno das nossas posições e utilizar a campanha eleitoral como instrumento de organização da esquerda petista.

Mesmo com todas as limitações e contradições que uma campanha eleitoral burguesa possui, ela tem se mostrado um momento em que a luta de classes se agudiza e que a polarização política se aprofunda.

Por isso, precisamos nos preparar para enfrentar o momento que estamos atravessando e criar as condições para um salto organizativo que permita disputar em melhores condições os rumos do PT em Pernambuco.

23.2.22

Até onde ir com o PSB?

Refundado em 1985, depois ter sido cassado pela ditadura militar em 1965, o Partido Socialista Brasileiro (PSB) sempre teve uma grande influência na política pernambucana. Não à toa que desde 1993 todos os presidentes nacionais do partido foram pernambucanos: Miguel Arraes, de 1993 à 2005; Eduardo Campos, de 2005 à 2014; e Carlos Siqueira, de 2014 até o momento em 2022.

Mesmo tendo sido refundado conservando seu programa original de 1947, de caráter socialista e democrático, o novo PSB nunca foi exatamente o mesmo daquelas lideranças sindicais e das ligas camponesas do período pré-golpe de 1964. Como ocorreria com outros partidos da esquerda brasileira ao longo da “Nova República”, a dimensão da atuação institucional e da disputa eleitoral cresceu em importância frente à luta social e a mobilização popular.

Basta conferir o próprio resumo da história do partido, apresentado em seu site oficial (https://www.psb40.org.br/quem-somos/nossa-historia-2/), para perceber que os grandes marcos da atuação do PSB a partir de sua refundação são medidos através das eleições, com a conquista de governos estaduais e mandatos parlamentares, além da participação em disputas presidenciais.

Entretanto, durante boa parte do período pós-refundação, o PSB adotou posições que o caracterizaram nacionalmente enquanto um partido de centro-esquerda. Contribuiu para essa caracterização muito mais sua história do que efetivamente as políticas que passou a implementar nos estados governados ou nas votações de suas bancadas.

Mas essa caracterização passa a ser alterada no momento em que o partido caminha para o rompimento, e efetivamente rompe, com os governos petistas em 2013, na esteira da implementação de uma política de parcerias público-privadas e privatizações no campo da saúde em seus governos estaduais.

Mesmo que em outros momento o PSB tenha se afastado do campo democrático-popular, são as posições adotadas a partir de 2013 que o distanciam imensamente da caracterização de partido de centro-esquerda. A partir daí, em 2014, o partido lança uma candidatura presidencial em oposição a candidatura da presidenta Dilma Rousseff e no segundo turno das eleições decide apoiar o candidato tucano Aécio Neves, que defendia um programa de privatizações, independência do banco central e reformas neoliberais.

Mesmo com a vitória de Dilma, a Comissão Executiva Nacional do PSB aprovou, por unanimidade, uma postura de independência em relação ao governo federal e no período seguinte se somou às fileiras dos movimentos golpistas que ocorreram em 2016. De forma explícita e declarada, o presidente nacional do partido chegou a publicar artigo na Folha de São Paulo no dia 14 de abril de 2016 que encerrava dizendo:

“[...] não há dúvida de que ao descalabro governamental somam-se aspectos legais. A inaceitável narrativa do "golpe" beira o ridículo. Diante desta sombria realidade, a dinâmica política impõe ao PSB apoiar o processo de impeachment que ora tramita na Câmara dos Deputados, única saída constitucional e legal, no momento, para que nosso país tenha um governo de transição, a exemplo do que realizou o presidente Itamar Franco. Um governo que coloque o país nos trilhos e inicie a tarefa de reconstrução nacional, unindo a nação e promovendo a necessária coesão social e política, visando enfrentar a herança, esta sim maldita, do atual governo”.

No dia 11 de abril daquele ano a Comissão Executiva Nacional do PSB tinha aprovado a recomendação para que as bancadas do partido na Câmara e no Senado votassem pelo impeachment da presidenta Dilma. Assim, 29 dos 32 deputados federais do PSB votaram a favor do golpe contra a presidenta Dilma na votação do impeachment na Câmara dos Deputados. Foram 367 votos a favor do impeachment, sendo que eram necessários 342 votos para seu prosseguimento. Sem os votos do PSB, teriam sido 338. No Senado, 5 dos 7 Senadores votaram pela condenação da presidenta Dilma.

Assim, com suas digitais no golpe, entre maio de 2016 e abril de 2018, o PSB passou a integrar o governo de Michel Temer, ocupando o ministério de Minas e Energia com o pernambucano Fernando Bezerra Coelho Filho. Da mesma forma, parte da bancada do partido seguiu votando nas reformas neoliberais propostas pelo governo Temer.

Na votação da PEC que instituiu o Teto de Gastos, que congelou os investimentos públicos em saúde e educação por vinte anos, 22 dos 32 deputados federais do PSB votaram favoravelmente. No texto base da reforma trabalhista, 14 dos 30 deputados federais do PSB que participaram da votação, disseram sim ao projeto. Já no projeto de lei que ampliou a terceirização, dos 21 deputados do PSB que participaram da votação, 11 votaram favoravelmente a proposta.

Ou seja, quando não se estabeleceu uma maioria na bancada em favor das reformas neoliberais, cerca de metade dos parlamentares do partido votou de forma fiel a elas. Além disso, o papel do ministro do PSB no governo Temer foi de protagonismo na defesa das privatizações do setor energético, que foram preparadas naquele momento e vieram a se concretizar principalmente com a eleição de Jair Bolsonaro.

Sobre este fato, assim como fez de 2002, 2006 e 2014, o PSB não compôs a coligação da candidatura do PT à presidência da República. Em 2002 e 2014 apresentaram candidatura própria, primeiro com Anthony Garotinho e depois com Eduardo Campos. Em 2006 apoiam a candidatura de Lula sem compor oficialmente a coligação. E em 2018, mesmo diante da ameaça bolsonarista, o PSB exigiu que o PT retirasse sua candidatura ao governo de Pernambuco em troca da sua... neutralidade nacional.

E efetivamente foi isso que ocorreu. A candidatura de Lula e depois de Fernando Haddad não pôde contar sequer com o tempo de TV do PSB, pois a opção feita pelo partido foi de ficar neutro diante da ameaça neofacista de Bolsonaro. Além disso, em alguns estados, como no caso de São Paulo, a opção das candidaturas do PSB foi de não fazer campanha para o petista Fernando Haddad.

Durante o governo Bolsonaro, há digitais do PSB também nas reformas ultraliberais encabeçadas por ele e Paulo Guedes, como na votação da Reforma da Previdência, quando 11 deputados federais do PSB votaram favoravelmente ao projeto. Em outras votações favoráveis ao governo Bolsonaro e contra os interesses do povo, parte da bancada do PSB entregou seus votos, como na PEC dos Precatórios, quando 11 deputados do partido votaram sim, na privatização da Eletrobrás com 5 votos favoráveis e 3 votos a favor da privatização dos Correios.

Além disso, no início do primeiro ano do governo Bolsonaro, o PSB agiu para constituir um bloco de oposição sem o PT, conformando um bloco apenas com PDT e PCdoB. E nas eleições municipais de 2020 encabeçou algumas das campanhas com maior viés antipetista, como foi a realizada em Recife contra a candidatura de Marília Arraes, quando foram espalhados cartazes na cidade e feitas inserções de TV atacando o PT, Gleisi e outros dirigentes petistas.

É no mínimo de causar estranheza que, diante de todos esses fatos, parta do PSB no final de 2021 a proposta de realizar uma federação partidária com o PT. Ora, se em 2018 não quiseram compor a coligação do PT contra Bolsonaro; se em 2019 sequer quiseram compor o bloco de oposição na Câmara dos Deputados junto com o PT; se em 2020 fizeram uma das maiores campanhas antipetistas das eleições municipais; por que proporiam em 2021 uma Federação Partidária com o PT, que significa funcionar durante quatro anos como se um partido fosse?

Convenhamos que esse cavalo-de-pau foi, no mínimo, de causar estranheza. No entanto, as coisas foram ficando mais nítidas com o passar do tempo. Afinal, a proposta de federação apresentada cumpre o duplo papel de favorecer eleitoralmente os partidos federados e, ao mesmo tempo, enfraquecer o... PT.

Além disso, desde que a proposta do PSB foi apresentada, têm sido reincidentes as declarações de representantes do partido sobre reduzir ou limitar a influência do PT na federação. A ponto de se tratar, nesse começo de fevereiro, de ideias como o direito de veto do partido que tenha pelo menos 15% da composição do colegiado ou a contrariedade com a proposta de proporcionalidade pelo tamanho das bancadas no Congresso Nacional.

Já ficou nítido que a proposta de Federação Partidária com o PSB terá imensas implicações negativas para o PT. Caso ocorra, ela mudará significativamente a natura do PT, de um partido de massas e militante, com instâncias que pressupõem um alto grau de democracia interna, para um partido onde as bancas parlamentares se tornarão o centro ativo das disputas políticas e das principais decisões.

Além disso, para uma Federação com o PSB, que como demonstramos se afastou imensamente de sua origem de centro-esquerda e que hoje abriga parlamentares e posições de direita, será preciso realizar concessões programáticas que também mudarão o caráter e a natureza do PT. Diante dos imensos desafios colocados para um possível governo Lula, é exatamente o caminho oposto ao das concessões programáticas que o PT e a esquerda precisam trilhar.

É em meio a este cenário que estão ocorrendo, também, as discussões sobre a composição das chapas para as disputas majoritárias deste ano. Em Pernambuco, diante de uma avaliação ruim do governo Paulo Câmara e de um quadro econômico e social cada vez pior, que fez Pernambuco ter o maior índice de desemprego do país no terceiro trimestre de 2021, uma parcela da direção estadual do PT achou que seria correto apresentar uma candidatura para oferecer como alternativa para a Frente Popular (bloco de partidos liderados pelo PSB desde 2006).

Acontece que, agindo como sempre agiu no último período, o PSB ignorou esse pedido da maioria do PT-PE de retornar para a Frente Popular por meio de uma candidatura, e decidiu apresentar, pela quinta vez consecutiva, uma candidatura própria ao governo do estado. Diante dessa negativa, no lugar de apresentar uma candidatura petista de oposição ao PSB e a Frente Popular, a opção feita pelo pré-candidato indicado pela maioria do PT foi de retirar sua pré-candidatura num “gesto político” para o PSB.

E este é o ponto em que nos encontramos agora. Nacionalmente, com o PSB agindo para reduzir ao máximo o tamanho do PT e sua influência nas decisões de uma possível federação; exigindo apoio à suas candidaturas em Pernambuco, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro; e cobrando “reciprocidade” do PT.

Em Pernambuco, agiu inicialmente levantando vetos a nomes do PT para composição da chapa majoritária; tentando recuperar parte da aprovação perdida; e vendo crescer setores das oligarquias da direita mais tradicional que foram fortalecidas e ganharam musculatura dentro do PSB, como é o caso de Raquel Lyra e Miguel Coelho. Ambos são pré-candidatos ao Governo do Estado pelo PSDB e pelo DEM, respectivamente, e foram do PSB até recentemente: Raquel até 2016 e Miguel até 2019.

Nesse cenário nada fácil e tão pouco definido, cabe ao Partido dos Trabalhadores agir. O correto seria o PT apresentar uma candidatura de oposição ao governo do PSB. Infelizmente, essa alternativa parece cada vez menos provável diante das tratativas nacionais para composição da chapa presidencial de Lula.

Prevalecendo, portanto, a tática de composição com a Frente Popular em Pernambuco, na perspectiva de ter o PSB na coligação nacional da chapa presidencial de Lula, a presença do PT na chapa estadual do PSB precisa ser na melhor condição para o partido. Nesse momento, essa posição significa a indicação da candidatura ao Senado.

É o PT quem reúne as melhores condições e os quadros políticos com maior envergadura, como é o caso da deputada federal Marília Arraes, para canalizar em Pernambuco a política que será defendida nacionalmente pela candidatura de Lula. Precisaremos de uma candidatura que faça a defesa da revogação das reformas neoliberais, do fim do teto de gastos e da ampliação dos investimentos públicos em saúde e educação.

Esse precisa ser o tom da campanha em 2022, num movimento nacional que trave a disputa política, cultural e ideológica em todos os setores da classe trabalhadora. Em Pernambuco, é uma candidatura majoritária petista que possibilitará fazer esse enfrentamento, elegendo um programa que tenha sustentação nacional e que seja capaz de desfazer tudo que foi feito pela direita e seus aliados desde o golpe de 2016. Esse deve ser o papel do PT e da militância do partido. Se o PSB será um aliado, cabe a eles definir.

9.2.22

A dimensão moral do programa

 [Texto originalmente publicado na edição de fevereiro do jornal Página 13]


Bolsonaro e a extrema-direita conseguiram mobilizar, ao longo dos últimos anos, uma expressiva força política e social através da constante disputa cultural e ideológica. Eles foram favorecidos pelo aprofundamento da crise econômica iniciada em 2008 e pelas condições que a própria direita impôs ao Brasil desde a preparação do golpe de 2016, com o desemprego crescente, a perda de direitos trabalhistas e sociais, e a piora nas condições de vida de milhões de trabalhadoras e trabalhadores.

Mesmo apresentando um programa que apontava para o aprofundamento da crise para os mais pobres, com privatizações, reformas ultraliberais e redução das liberdades democráticas e da proteção social, parcelas da classe trabalhadora foram ganhas pelo bolsonarismo. Existem diversos fatores que explicam, em maior ou menor medida, esse movimento à direita, como a força do conservadorismo nas classes populares, a situação internacional, a fragilização das organizações populares de esquerda, a perda de território para organizações fundamentalistas, para o crime e a milícia, os erros cometidos pelos governos petistas e os anos de ataques da direita através do oligopólio da mídia e do judiciário.

Mas há também uma dimensão moral no programa conservador bolsonarista que cumpriu um importante papel na disputa travada. Por um lado, a chamada “pauta moral” ou dos costumes foi atiçada contra a esquerda, num movimento de caracterização da direita como defensora de supostos “bons valores” (cristãos, heteronormativos e etc.). Por outro, se buscou constituir uma determinada moralidade pelo discurso “contra” a corrupção e a criminalização do PT.

Tudo isso contribuiu para que a extrema-direita e o bolsonarismo conseguissem se apresentar, por exemplo, como uma alternativa antissistema, no momento em que crescia em parte da população a compressão de que a piora das condições de vida estava diretamente ligada ao governo, aos políticos e as instituições.

Mas passados mais de três anos do início do governo Bolsonaro, a situação econômica e social piorou brutalmente; são mais de 620 mil pessoas mortas, milhares dessas mortes devido ao negacionismo que levou a falta de vacinas; Bolsonaro e sua família tornaram ainda mais público que são parte integrante do sistema; e os casos de corrupção, como o superfaturamento de vacinas e o dinheiro escondido para comprar apoio no congresso e financiar aliados, se tornaram cotidianos.

Ainda assim, o governo segue com o apoio de aproximadamente 25% dos eleitores. Há quem considere esse percentual baixo, principalmente quando colocado ao lado das intenções de voto que, hoje, Lula tem registrado. Com isso, acabam subestimando a força do bolsonarismo, que apesar de tudo que já fez, ainda possui cerca de ¼ do eleitorado.

Mas além disso, deixam em segundo plano o impacto que a influência do bolsonarismo promoveu em setores da classe trabalhadora. São anos de um trabalho cotidiano de difusão de mentiras, mas também da defesa de posições conservadoras, racistas, machistas, lgbtfóbicas, individualistas e de uma meritocracia egoísta.

 

Enfrentar essa dimensão moral do programa bolsonarista será fundamental para derrotar a extrema-direita. O estrago causado na vida de milhões de pessoas desde o golpe de 2016 foi imenso e, mesmo que muitos considerem que Lula pode devolver aquilo que foi tirado, essa compreensão não ocorre de forma automática e nem se dará apenas por meio de publicidade e marketing eleitoral.

Por isso, o programa que o PT e a campanha de Lula devem apresentar para as eleições de 2022 precisa ter muita nitidez em todas as suas dimensões, inclusive no campo “moral”. E nesse aspecto as posições não podem esperar a campanha eleitoral para serem apresentadas.

A defesa de valores como a solidariedade, o coletivismo, a alteridade, a tolerância e de princípios como a justiça social precisarão ser trabalhados cotidianamente. Mas isso não será fácil, principalmente num cenário em que milhões de pessoas não tem o que compartilhar, o que comer, onde morar e que estão lutando todos os dias, muitas vezes uns contra os outros, para sobreviver.

No entanto, se quisermos efetivamente dar conta de um programa de transformação e reconstrução do país, que desfaça tudo aquilo que foi feito pelo menos desde o golpe de 2016 e que avance com reformas estruturais, alguns desses valores precisarão ser reforçados em amplos setores da classe trabalhadora.

Isso não será fácil, e será muito mais difícil de ser feito se a chapa presidencial de Lula for composta por alguém que expressa exatamente o oposto dessas ideias, como o “ex-tucano”, golpista, conservador, espancador de professor e privatista, Geraldo Alckmin. Ou ainda por meio de uma federação partidária que reúna partidos de centro-direita que foram cumplices do golpe de 2016 e da aprovação das reformas neoliberais.

O programa precisa expressar nossa disposição e capacidade de enfrentar o sistema financeiro, o oligopólio dos meios de comunicação, o latifúndio, o imperialismo e de garantir empregos, comida, moradia, terra, saúde, educação, proteção social e dignidade para o povo. Um programa, portanto, que tenha moral para convencer as trabalhadoras e os trabalhadores da sua necessidade e urgência. Ou fazemos isso, adotando uma tática de mobilização de massas, ou podemos ver novamente a extrema-direita aproveitar a degradação da vida do povo para, a partir do que as pessoas têm de pior, mobilizá-las contra seus próprios interesses.

2.2.22

La Casa de Papel

[Texto originalmente publicado na Revista Esquerda Petista de Janeiro de 2022]


A série

Tóquio. Nairóbi. Berlim. Moscou. Helsinque. Oslo. Denver. Rio. Estocolmo. Palermo. Lisboa. Marselha. Bogotá. Manila. O que todas essas cidades possuem em comum? São os codinomes dos personagens da série La Casa de Papel, produção espanhola que estreou no ano de 2017 e se tornou um dos maiores sucessos do streaming Netflix.

Por alguns anos, ela permaneceu como a série mais vista da plataforma, sendo o conteúdo em língua não inglesa mais assistido entre todos os títulos disponíveis. Criada por Alex Pina, nascido em Pamplona, e dirigido por Jesús Colmenar, Koldo Serra, Álex Rodrigo e Javier Quintas, La Casa de Papel teve sua última temporada lançada no dia 03 de dezembro de 2021.

Mas afinal de contas, como uma série não americana, com um roteiro que tinha tudo para ser mais um clichê, tornou-se um fenômeno global? Qual a novidade em outra história de assalto? Quantos e quantos filmes já não mostraram os mais genais planos e roubos? Por que então todo esse sucesso? Agregue-se o fato de não haver nenhuma atriz ou ator hollywoodiano que impulsionasse por si o enredo da história.

Para começar, La Casa de Papel possui um conjunto de elementos que se assemelham a maioria dos filmes e demais produções do gênero. Por trás do plano genial, uma mente genial. Na série, esta é a do Professor, personagem interpretado por Álvaro Morte, que também fez “El secreto de Puente Viejo”.

Além do Professor, o grupo de atracadores é formado por pessoas com habilidades essenciais para o sucesso do plano. Para quem já assistiu algum dos filmes da trilogia “Onze Homens e Um Segredo”, de Steven Soderbergh ou “O Plano Perfeito”, de Spike Lee, nenhuma novidade.

Mas talvez seja justamente aí, naquilo que tantos já fizeram, que La Casa de Papel conseguiu introduzir os elementos do seu sucesso. Por trás dos macacões vermelhos e das máscaras de Salvador Dalí, não estavam apenas os personagens da série, mas cada um e cada uma de nós, cumplices do assalto.

Pois foi justamente essa a atmosfera construída ao longo de toda a série. A cada momento em que o plano era explicado e que os fatos se desdobravam, era possível sentir a empatia de quem faz parte de uma torcida. Ou melhor, de quem é um jogador do mesmo time. Além disso, ao conhecer a história de cada personagem, os laços de afinidade foram sendo cuidadosamente fiados. Nos deparamos com pessoas falhas, orgulhosas, egoístas, cheias de defeitos e problemas. Mas também, cheias de sonhos, bondade, solidariedade, desejos e esperanças.

A série consegue o feito de mostrar, através de um crime, pessoas comuns fazendo o extraordinário. E esse extraordinário não é movido por um ideal comum de mudar o mundo ou enfrentar o sistema. Cada um aceita participar da empreitada por seus próprios motivos e interesses. Mas logo fica evidente que há muito mais do que apenas a soma de interesses individuais.

Existe sim um sistema à ser enfrentado. E esse sistema está expresso em símbolos. Primeiro, a Casa da Moeda da Espanha. Um lugar que, literalmente, imprime dinheiro. Papel Moeda. A mesma que é responsável pela miséria e pelo sofrimento de alguns dos nossos personagens em vidas complicadas e cheias de dor. O segundo, o próprio Banco da Espanha e sua reserva de ouro. Símbolo de poder e de dominação, o ouro espanhol já foi objeto de contos, mitos e histórias sobre maldições e piratas. Acumulado pela pilhagem de países pobres, principalmente da América Latina e do Caribe através de séculos, é justamente a reserva de ouro do Banco da Espanha que serve de barganha para a liberdade.

Não são assaltos a bancos privados, a cassinos ou ao cofre de um bilionário. Não é a “fortuna privada”, que na maior parte dos filmes é o objeto da cobiça e da justiça. Os alvos são símbolos de poder e dominação, e isso faz toda a diferença. Acrescente-se a trilha sonora que embala alguns dos momentos mais marcantes da série, como as celebrações ao som da canção antifascista “Bella Ciao”, e temos a caracterização do que realmente representa aquilo que estão fazendo, coletivamente, nossos personagens: lutando.

Mas será correto considerar a ação de um pequeno grupo de assaltantes, movidos por interesses particulares, a representação de uma luta antissistema? Certamente é preciso fazer muitas ponderações. Por mais que milhões de Euros jogados do céu nos faça sentir uma “justiça de Robin Hood”, isso por si só não faz de alguém um herói.

 

Banditismo Social?

O conceito de banditismo social está presente, entre outras obras, no livro “Bandidos”, do historiador marxista Eric Robsbawm. Na obra, Robsbwam apresenta diversas caracterizações e exemplos históricos de grupos que agiram contra “a lei e a ordem”, mas que foram vistos por seus pares como protetores ou heróis.

Ao falar do Brasil, Robsbawm lembra dos cangaceiros, com destaque para Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. O exemplo de Lampião e seu bando ilustra a ambiguidade dos “bandidos sociais”, vistos tanto como heróis quanto como criminosos. De toda forma, uma das ideias expressas é a do “bandido como uma figura de protesto e rebelião social”.

A noção de banditismo social aparece de diversas formas em La Casa de Papel. Em suas primeiras temporadas, que retratam o assalto a Casa da Moeda da Espanha, o plano do Professor tem como um dos seus principais elementos o ganho do apoio popular. A chuva de Euros lançados a partir de dirigíveis, além de cumprir o papel de distração, busca constituir um caráter “social” ao assalto.

Algo que também é demonstrado a cada tentativa de convencer os reféns a colaborarem com o assalto, com a promessa de que parte do dinheiro ficará com eles. Em vários diálogos, a busca pela colaboração tenta revelar que não se trata de um roubo “mesquinho”, mas que ele possui objetivos morais bem mais grandiosos.

Assim como os exemplos pesquisados por Robsbawm, os nossos personagens são simultaneamente vistos como heróis e criminosos, tanto pelos reféns, quanto pelo conjunto da população que acompanha o desenrolar do assalto. A moralidade dúbia dos assaltantes, que por vezes faz parecer que estão tirando dos ricos para dar aos pobres, é constantemente questionada ao terem suas vidas e passados expostos.

No entanto, mesmo quando alguns deles têm suas identidades e crimes revelados, o que se percebe é que a grandiosidade do que se está tentando fazer, associada a noção de justiça que de certa forma representam, torna os personagens verdadeiros símbolos de resistência. Não à toa que, dentro e fora das telas, as máscaras de Dalí se transformaram em algo parecido com aquilo que a de Guy Fawkes se tornou após o clássico V de Vingança.

Nesse sentido, cabem ainda as palavras de Robsbawm, quando diz que o banditismo social, seja ele reformista ou revolucionário, “em si não constitui um movimento social. Pode ser uma alternativa disso, como ocorre quando camponeses admiram Robin Hoods como seus defensores, por falta de uma atividade mais positiva por parte deles próprios” (p.34).

Na ausência de uma luta explicita e efetivamente antissistema, ter quem busque enfrentar parte dele já é algo bem significativo. De tal forma que, mesmo não existindo uma bussola ideológica que oriente a conduta dos personagens, a bussola moral utilizada por eles, os conduz a um caminho muito próximo de quem luta contra o mesmo sistema que eles estão enfrentando.

E aqui chegamos num ponto de virada, principalmente nas últimas temporadas da série, quando os personagens são movidos pela solidariedade com seus companheiros. O plano do roubo ao Banco Real da Espanha, diferente do realizado na Casa da Moeda, tem o objetivo principal de resgate. Mas muito mais do que um companheiro é resgatado junto com ele.

 

As grandes ilusões

Existem inúmeras críticas a La Casa de Papel não ter se encerrado com o desfecho do assalto a Casa da Moeda. Há quem diga que sua consagração já tinha chegado e que seria um risco imenso reabrir as cortinas para um novo ato. Acontece que as temporadas da série que tratam do assalto ao Banco Real da Espanha foram fundamentais para que ela pudesse responder algumas das questões colocadas anteriormente.

A prisão de Rio e todas as torturas pelas quais ele passou, as mentiras contadas para a população, o uso de mercenários e a corrupção na polícia, mostraram a face do sistema enfrentado pelos personagens. Um sistema podre, mas que não cai de maduro. E que diante de uma ameaça reage tudo aquilo que tem de pior.

Mas além disso, um sistema sustentando por fortes ilusões. Ao longo das primeiras temporadas, vimos o Professor utilizar ilusões para enganar a polícia e garantir a execução do plano. Desde pequenos truques, como falsas pistas plantadas, até grandes feitos, como o resgate de helicóptero diante de toda a imprensa e a guarda nacional.

Mas entre todas as ilusões, há uma que as últimas temporadas de La Casa de Papel conseguem demonstrar com grande êxito: a ilusão da riqueza. O assalto ao Banco Real da Espanha se inicia para resgatar Rio, mas não termina por isso. E é o desfecho desse assalto que faz a série responder questões e superar as dúvidas sobre se tratar apenas da história de um grupo de bandidos que pensam unicamente em si, ou se representam mesmo uma faísca de luta contra o sistema.

- O que é o ouro de um país?

- Sua riqueza?

- Não, uma ilusão.

Esse breve diálogo entre o Professor e Palermo sintetiza a ideia principal construída ao longo das últimas temporadas da série. Desde que o plano de resgate de Rio foi apresentado, sabíamos que era preciso retirar todo o ouro do banco. Mas porquê? Apenas por ganância? Não. Mais de uma vez foi dito que essa era a única forma de saírem.

Mas como? Era possível retirar o ouro, mas não era possível sair. E é neste ponto que o plano do Professor mostra a grande ilusão que faz o sistema funcionar, e sem a qual, ele desmorona. A ilusão da riqueza. Em outras palavras, não se trata de ter ouro no cofre. Se trata apenas de acharem que há.

Aqui La Casa de Papel dá um salto de uma certa forma de “banditismo social”, para uma verdadeira denúncia e enfrentamento ao sistema. Mesmo que a bussola que continua orientando a ação dos personagens seja principalmente a moral, ela aponta para o mesmo norte da ideologia.

A liberdade dos personagens está condicionada a ilusão criada pelo próprio sistema. E o plano faz dessa ilusão uma realidade com a qual todos precisam lidar. Ao tratar do funcionamento do sistema capitalista como ele realmente é, La Casa de Papel deixou para trás a maior parte das dúvidas que ainda podiam pairar sobre ela.

Menos, é claro, a dúvida sobre o que tinha escrito na mensagem do Professor para o jovem Rafael. Mas essa, talvez, seja somente mais uma ilusão.


12.12.21

Programa à esquerda ou federação ao centro?

Começamos o último mês desse difícil ano de 2021. Um ano marcado pela segunda onda da pandemia de Covid-19 e pelo agravamento da crise social e econômica provocada pelo governo Bolsonaro. São cerca de 20 milhões de pessoas passando fome, mais de 15 milhões sem encontrar emprego, uma inflação que tem feito o carro do ovo vender a bandeja a R$ 16,00 e uma política de preços na Petrobras que faz o preço da gasolina chegar a quase R$ 8,00.

Por conta do governo Bolsonaro, de seus aliados e de suas políticas, o balanço do ano de 2021 é muito ruim para a maioria do povo brasileiro. Diante de uma situação tão difícil, será que podemos olhar para 2022 com esperanças? Acredito que sim.

A classe trabalhadora brasileira deu importantes demonstrações de força, mesmo diante das enormes dificuldades enfrentadas. Apesar dos riscos do vírus, foram diversas mobilizações que levaram centenas de milhares de pessoas às ruas do país em defesa da vacina, de empregos e contra a fome. Ao mesmo tempo, após a recuperação dos direitos políticos de Lula, ele lidera todas as pesquisas de opinião para as eleições presidenciais do próximo ano.

Ou seja, existe uma janela de oportunidade para que a classe trabalhadora derrote a extrema direita e seu projeto de morte e fome. No entanto, a existência da janela não significa que vamos conseguir passar por ela. Em outras palavras, a vitória precisa ser construída, pois ela não cairá do céu e nem será entregue por delivery se ficarmos esperando em casa.

Uma questão fundamental para construirmos essa vitória é termos muita nitidez programática. Uma parcela expressiva da classe trabalhadora continua cheia de dúvidas se Lula conseguirá ser candidato, se conseguirá tomar posse, se conseguirá governar e, governando, o que fará para acabar com toda a desgraça que a direita vem fazendo com o país desde o golpe de 2016.

Por isso, não podemos terminar o ano de 2021 dando sinais que aumentam essas dúvidas, como a absurda hipótese de uma composição com o tucano Geraldo Alckmin. Da mesma forma que é um erro apressar o debate sobre as federações partidárias e terminar o ano flertando com uma sugestão de federação com o PSB, partido que em 2014 lançou candidatura contra Dilma e que apoiou Aécio no segundo turno; votou pelo impeachment em 2016; que em 2018, diante da disputa entre Lula e Haddad contra Bolsonaro, optou pela neutralidade; e que em 2020 promoveu uma das mais raivosas campanhas antipetistas do país.

É evidente que o PSB pode fazer uma reorientação da sua política. Que a banda de esquerda do partido poderia combater sua banda de direita. E seria ótimo que isso ocorresse. No entanto, não há indícios de que isso esteja em curso, pelo contrário. Além das tratativas para a filiação do tucano Geraldo Alckmin, parte da bancada do partido tem sido aliada de primeira ordem de Arthur Lira e da política bolsonarista na Câmara dos Deputados.

É por isso, também, que o flerte de dirigentes do PT com a proposta de federação partidária feita pelo PSB é muito ruim. Indica um caminho equivocado, que tem como pano de fundo a busca de uma moderação e de um centro que apenas rebaixa o debate programático. O momento é de fazer exatamente o contrário. É de avançarmos em torno do programa que queremos para o Brasil e, a partir dele, definir a tática e quais aliados estarão juntos.

Afinal de contas, a federação proposta pelo PSB é para desfazer as reformas trabalhista e da previdência? Para acabar com o teto de gastos que limita os investimentos na saúde e na educação? É para combater a atual lógica de hegemonia do agronegócio? Para enfrentar o monopólio dos grandes bancos? Até onde sabemos, não é para isso.

Além do mais, o que tem ocorrido na América Latina e região dá indícios do que podemos enfrentar aqui. No Peru, foi para o segundo turno a candidatura de extrema-direita representada pela filha do ditador Fujimori contra uma candidatura de esquerda, que atropelou as candidaturas de centro. O mesmo acaba de ocorrer no Chile, em que uma candidatura de extrema-direita que defende o legado do ditador Pinochet foi para o segundo turno contra uma candidatura de esquerda, numa situação de grande polarização.

Nos dois casos, assim como na Argentina, na Bolívia e na Venezuela, locais em que obtivemos vitórias eleitorais recentes, foram fundamentais a luta social, a mobilização popular e a defesa de um programa de enfrentamento ao neoliberalismo. Nesses e outros lugares, todas as movimentações rumo ao centro implicaram em fragilização.

Aqui no Brasil, estamos entrando num período de arrefecimento da luta social, que pode se estender até o mês de março de 2022 (período pós carnaval). Nesse período, todas as frações da direita continuarão se movimentando. O bolsonarismo avançará com a tentativa de recuperar apoio popular e crescer em cima do eleitorado de Lula a partir do desmonte do Bolsa Família e do pagamento de R$ 400,00 via Auxílio Brasil. Além disso, fortalecerá sua base de apoio parlamentar por meio do bilionário orçamento secreto e emendas de relator.

Já a direita “não bolsonarista” seguirá na busca de uma candidatura alternativa a Bolsonaro que garanta a continuidade do programa econômico ultraliberal. Rodrigo Pacheco, Alessandro Vieira, Ciro Gomes, João Dória, Eduardo Leite e Sérgio Moro são algumas dessas opções. Não podemos subestimar a “terceira via”, principalmente com a presença de Moro. E sabemos que, caso nenhuma delas emplaque, Bolsonaro continuará sendo a alternativa das elites para derrotar Lula e o PT.

Por isso, é fundamental que o PT adote uma tática de enfrentamento contra todos esses setores, organizando uma campanha em torno de um programa de esquerda e não caindo em ilusões conciliatórias ou em flertes como esse do PSB. É essa a resposta que precisamos ter diante das demonstrações de força e resistência que a classe trabalhadora deu ao longo de todo esse ano.

É essa a conduta que precisamos ter para encarar o ano de 2022, que exigirá muita luta social e muita mobilização popular para derrotar a direita nas ruas e nas urnas. E mais do que isso, para conseguir desfazer suas maldades. Fica aqui a questão: faremos isso ombreados com quem votou nas reformas neoliberais? Ou faremos isso para derrotar quem votou nas reformas neoliberais?


*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores

2.11.21

Dias para pensar

Existem dias que devemos simplesmente parar.

Deixar o ar entrar nos pulmões e pensar nele por um instante.

Em como são simples as coisas mais importantes.

Complicamos demais a vida. 

Exigimos demais dela, quando ela nos pede tão pouco.

As vezes, apenas inspirar e expirar. E perceber que tudo, queiramos ou não, uma hora vai passar.