[Texto de constribuição escrito para a Cartilha de Assistência Estudantil da FEAB Gestão 2014-2015]
Entrar, permanecer e transformar a Universidade
Uma leitura sobre o atual cenário das lutas pela Assistência Estudantil
no Brasil e o papel do movimento estudantil.
*Patrick Campos Araújo
Um breve histórico das mudanças recentes no ensino superior brasileiro
Ao longo dos últimos onze anos, o
ensino superior brasileiro viveu um processo de re-conformação. Este processo
possui duas características principais. Uma é o fim do ciclo de sucateamento
das instituições públicas, que teve seu auge com os governos neoliberais na
segunda metade dos anos noventa. A outra é o inicio de um ciclo de expansão,
baseada na ampliação da quantidade de vagas ofertadas, tanto no setor público
quanto no setor privado.
Mesmo não ocorrendo uma Reforma
Universitária estricto sensu, como era
a proposta dos movimentos de educação e do movimento estudantil consolidada no
PL 7200/06, uma série de programas e de políticas foram implementadas a partir
do ano 2003, com o objetivo de atender algumas das demandas e reivindicações,
tanto dos movimentos quanto do setor empresarial.
Entre as ações, merecem destaque
quatro políticas que tiveram impacto direto em algumas estruturas do chamado modelo
tradicional de Universidade. Modelo este que foi estabelecido durante os anos
sessenta, quando da última Reforma Universitária.
A primeira destas ações foi o
Programa Universidade Para Todos. O PROUNI foi baseado na política de aquisição
de vagas no setor privado para serem ofertadas por meio de bolsas integrais e
parciais para estudantes de baixa renda, através de processos de seleção
pública realizados pelo MEC.
A segunda ação foi o Programa de
Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, o REUNI. Na verdade, o REUNI
se caracteriza como a segunda fase do processo de expansão, pois este se
compreendeu no período de 2003 a 2007, através da denominada Expansão I. Esta
primeira fase, segundo o relatório da Comissão para Análise sobre a Expansão
das Universidades Federais, “teve como
principal meta interiorizar o ensino superior público federal, o qual contava
até o ano de 2002 com 45 Universidades Federais e 148 câmpus/unidades”.
Já o REUNI propriamente dito, “tinha como objetivo principal criar
condições para a ampliação do acesso e permanência [...] pelo melhor
aproveitamento da estrutura física e de recursos humanos existentes nas
Universidades Federais. Também havia a possibilidade de criação de novos campi
para o interior do país...”. Desenvolvido através de etapas, e em meio a muitas
lutas, resistências e situações contraditórias, o resultado do REUNI foi à
ampliação das vagas nos cursos de graduação, com ampliação dos cursos noturnos
e a construção de novas instituições que atenderam a ideia de interiorização
das Federais.
A terceira ação foi o
estabelecimento do Exame Nacional do Ensino Médio como mecanismo de avaliação
universal para ingresso através do Sistema de Seleção Unificado (SISU). O fim
do vestibular em diversas instituições e a adesão ao ENEM criou um cenário de
grande mobilidade acadêmica e geográfica entre os estudantes de todo o país. Por
meio do SISU, diferente do vestibular tradicional de cada instituição, os
estudantes podem disputar vagas em instituições de todos os estados do país.
Por fim, a quarta ação foi à
aprovação da Lei 12.711, ou a Lei de Cotas, que estabeleceu a reserva de vagas nos
Institutos e Universidades Federais para estudantes oriundos de escolas
públicas e para estudantes negros e pardos.
Estas quatro ações foram o carro
chefe do enfrentamento a um dos problemas históricos da educação superior
brasileira, a questão do acesso.
A conseqüência deste processo é
que em cerca de dez anos (2003 a 2013) foi triplicada a quantidade vagas no
sistema de ensino superior brasileiro. Este aumento, todavia, tem uma
característica preocupante: a hegemonia do setor privado. Atualmente, das 2.416
instituições de Ensino Superior existentes, cerca de 75% são privadas.
Por óbvio que estas mudanças,
tímidas do ponto de vista das demandas dos movimentos, mas avançadas quando se
comparadas com a trajetória da educação superior em toda a história do Brasil,
modificaram em alguns aspectos aquilo que é chamada de condição tradicional da
universidade.
Uma destas modificações diz
respeito ao sujeito que hoje ingressa na Universidade brasileira. E é acerca
das condições que envolvem estes sujeitos que este texto busca tratar.
A questão do ingresso e da permanência
Com o REUNI, o PROUNI, o FIES, a
Lei de Cotas, o SISU e a ampliação dos cursos de graduação nos Institutos
Federais e sua vertiginosa ampliação, um setor da sociedade que historicamente
foi mantido distante do ensino superior, agora vem conquistando este espaço. Notadamente
estudantes de escolas públicas, mulheres, negras/os, indígenas e quilombolas
são algumas das expressões deste setor.
Estes sujeitos constituem um novo
perfil de estudante. Diferente do passado recente, onde ingressava na
Universidade apenas aquele que tinha condições de sustentar seus estudos, estes
novos estudantes ingressam na Universidade demandando políticas que lhes
garantam a permanência.
É uma inversão de valores que tem
sua origem no ingresso destes estudantes no espaço universitário. Outrora, as
necessidades sempre existiram, todavia com os sujeitos mantidos distante da
universidade. O que ocorre agora é a presença cada vez maior destes dentro do
espaço universitário.
Essa nova conformação do espaço
universitário é marcada pelo aprofundamento das contradições históricas da
Universidade brasileira, pensada e construída majoritariamente para ser um
espaço de poucos para poucos, oriundos das melhores safras da elite nacional
que podia manter seus filhos em condições apropriadas durante o período
necessário para sua formação, vivendo com plenitude a condição de estudante.
Ingressam agora na Universidade
os trabalhadores, pais e mães, moradores das periferias e das cidades de
interior. São “produtores de
conhecimento”, agora, os produtores da riqueza da sociedade. Sujeitos que
precisam conciliar longas jornadas de trabalho, com o horário da faculdade. Que
saem de casa para viver numa outra cidade e estado contanto unicamente com o
apoio da instituição de ensino.
Estas são algumas das razões que
colocam no centro do debate acerca das transformações necessárias da
Universidade, a questão da assistência estudantil. Em síntese: a ampliação do
acesso a Universidade, trouxe para dentro desta um novo sujeito, que apenas
poderá ficar se lhe forem garantidas as condições de permanência.
Algumas políticas já foram
criadas com esta perspectiva. Em 2008 foi lançado o Plano Nacional de
Assistência Estudantil (PNAES), que tem na sua definição o objetivo de
garantir:
“a permanência
de estudantes de baixa renda matriculados em cursos de graduação presencial das
Instituições Federais de Ensino Superior (IFES). O objetivo é viabilizar a
igualdade de oportunidades entre todos os estudantes e contribuir para a
melhoria do desempenho acadêmico, a partir de medidas que buscam combater
situações de repetência e evasão. O PNAES oferece assistência à moradia
estudantil, alimentação, transporte, à saúde, inclusão digital, cultura,
esporte, creche e apoio pedagógico. As ações são executadas pela própria
instituição de ensino, que deve acompanhar e avaliar o desenvolvimento do
programa”.
O PNAES foi uma importante conquista
do movimento estudantil e dos movimentos de educação, com destaque para o Fórum
Nacional de Pró-reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis (FONAPRACE).
Hoje é a principal política de assistência estudantil do país, mas que carece
de uma atenção muito especial.
Uma de suas principais limitações
hoje diz respeito ao orçamento. Este gira em 2014 em torno dos R$ 700 milhões
de reais, num cenário onde o FONAPRACE diz que o mínimo necessário seriam R$ 2
bilhões para subsidiar todas as bolsas e auxílios existentes. Ou seja, o
recurso é insuficiente, o que impede que o Plano se realize por completo.
Por isso, ao longo do último ano
o conjunto do movimento estudantil vem se mobilizando para lutar pela ampliação
dos recursos do PNAES, bem como para discutir com profundidade o tema da
Assistência Estudantil, que sem dúvidas já se tornou bandeira da maioria das
entidades estudantis de todo o país.
A luta pela Assistência Estudantil
É com base nessa leitura da
situação concreta que os diversos setores do movimento estudantil brasileiro têm
destacado como uma de suas pautas centrais, a questão da Assistência
Estudantil.
Foi nesta perspectiva que no mês
de Maio de 2014, a União Nacional dos Estudantes (UNE) realizou na cidade de
Ouro Preto-MG seu III Seminário Nacional de Assistência Estudantil. Com a
participação de mais de 700 estudantes de todo o país, a atividade produziu uma
série de encaminhamentos, publicados por meio de um caderno de resoluções, que
apontam para cinco eixos de ação e uma campanha nacional a ser coordenada por
um Grupo de Trabalho Nacional.
Os eixos elencados foram: Concepção de Assistência Estudantil; a Participação
estudantil na construção das políticas de permanência; os desafios para a
permanência dos Cotistas; a assistência para Prounistas e estudantes que
aderiram ao FIES; e as condições de permanência das Mulheres na Universidade. A
escolha dos eixos ocorreu pela identificação destes com os sujeitos, que
ingressaram no ensino superior por meio do processo e dos programas de
expansão.
O Grupo de Trabalho Nacional foi
definido como órgão realizador de uma campanha de caráter permanente. A ideia é
que o GT seja composto pelos diversos segmentos e entidades representativas do
país, com destaque para as UEE’s e as Executivas de curso. A razão é que, o
debate da Assistência Estudantil perpassa pela realidade concreta de cada
estudante, que possui especificidades de acordo com o curso e com a região e
estado do país. Dessa maneira, articular a campanha com as entidades estaduais
e as Executivas de curso é algo decisivo para um processo de lutas vitorioso
para o conjunto dos estudantes.
Garantir que a rede do movimento
estudantil trabalhe de maneira articulada, com uma base de ação nacionalizada,
mas que ao mesmo tempo consiga atingir de maneira específica cada estudante é
sem dúvidas algo inédito do ponto de vista da luta pela Assistência Estudantil.
Em especial num contexto onde a
proposta é de incorporar pautas que, dialogando com a questão da Assistência
Estudantil, atinjam todas as estruturas da Universidade. Por esta razão a
campanha se intitula “Entrar, permanecer e transformar a Universidade”.
Afinal de contas, a mudança do
perfil dos estudantes é apenas um passo, uma parte da reconfiguração do
ambiente de lutas pela transformação da Universidade. Transformação que apenas
ocorrerá por meio de muitos enfrentamentos, que precisam ser feitos pelo
conjunto da comunidade universitária, mas que tem no movimento dos estudantes
sua força motriz.
É na luta pela assistência
estudantil que ganha mais espaço o debate acerca da reformulação curricular e
da formação profissional. Questões que passam desde o período de permanência
dos estudantes nas instituições de ensino, ao período de aulas práticas,
teóricas, dos conteúdos das disciplinas e das condições de desenvolvimento do
aprendizado, principalmente nos cursos em tempo integral.
É na luta pela assistência
estudantil que ganha volume as discussões sobre o fortalecimento do tripé
Ensino, Pesquisa e Extensão. Afinal, se não estiverem asseguradas as condições
de permanência dos estudantes, ficam extremamente prejudicadas também sua
capacidade de desenvolver pesquisa ou ser “extensionista”.
É pensando estas, entre outras
questões, de maneira integrada, que o debate da assistência estudantil pode ser
tido como uma das principais lutas do movimento estudantil, pois certamente irá
definir os rumos da Universidade brasileira.
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