Já está ficando chato escutar
repetidas vezes o argumento de que: é preciso ter alternância no governo, por
que o PT já está a muito tempo no poder. A ideia por si só já basta
para se anular, afinal, poderíamos facilmente afirmar doze anos para o Brasil não é muito tempo. E que neste tempo e em
condições normais de temperatura e pressão só duas coisas podem ocorrer: nada,
ou pouca coisa.
Logo, um governo de esquerda em
um país que viveu quase quatrocentos anos em regime de escravidão, servindo de
colônia e que passou por transições conservadoras até uma recente e frágil
democracia sustentada em poucos e parcos direitos e garantias sociais,
certamente precisa de algum tempo para conseguir realizar qualquer
transformação ou mudança. E precisará de muito tempo caso queira que estas
sejam profundas e permanentes.
Mas neste exato momento do ano de
2014, aonde a eleição presidencial chega ao segundo turno pondo em disputa dois
projetos antagônicos, a tese da alternância de poder tão fácil de ser repetida,
precisa ser analisada com todo o cuidado possível.
Primeiro porque, possivelmente, a
maior parte da população e dos eleitores brasileiros devem concordar que é
importante a dita alternância (exceto, claro, a maior parte dos paulistas
acerca do Governo do Estado, mesmo que aparentemente não usem o mesmo
raciocínio para o resto do país). Mas devemos nos questionar: Qual alternância?
E porque ela só serve para o Governo Federal? E porque mais precisamente para
os governos do PT, porque até quando a reeleição não existia, criaram para
manter o Fernando Henrique.
Sejamos sinceros, pois uma coisa
é avaliar a capacidade de certo governante concretizar o programa defendido por
ele em sua campanha e em sua plataforma eleitoral e uma vez identificando que
este não possui as condições para realizá-lo, escolher outro que reúna estas
condições. Outra coisa é não concordar com o
programa, e portanto escolher outro, que tenha outros princípios, eixos e
caminhos. E uma terceira coisa é o simples mudar por mudar, porque “mudar é importante”.
A propalada tese de alternância
que hoje ganha volume aponta para qual destas situações? Certamente existem
entusiastas de todas, mas é visível que a ideia de alternância no mudar pelo
mudar, mesmo com sua frágil consistência, é que mais ganha mais volume,
principalmente quando associada ao nefasto antipetismo forjado e reforçado
todos os dias nas redações dos principais jornais do país.
E por esta razão devemos buscar
demonstrar que, a mudança pela mudança, em especial nas atuais circunstâncias,
pode facilmente significar uma mudança para pior. Pois o que está em disputa
não são dois projetos desconhecidos. Pelo contrário. A disputa no segundo turno
das eleições presidenciais é a expressão da disputa entre dois projetos de
sociedade que já foram (e um ainda está sendo) postos em prática.
Nesse cenário, a defesa da ideia
da alternância na mudança pela mudança significa na verdade, a opção por outro
programa que já é bem conhecido por todos, pois foi colocado em prática ao
longo de todos os anos noventa. Logo, não há mudança pela mudança. Há a
possibilidade da alternância, mas neste caso, para uma opção que significa o
retrocesso.
Principalmente porque o marco
desta alternância não é a definição de quem dará continuidade aos programas de
governo ou a implantação de políticas de estado. O marco desta alternância se
dá na definição de qual projeto de sociedade queremos, o que é muito mais do
que programas de governo ou políticas de estado.
Por esta razão, é ilusão se
apegar as promessas do PSDB de manutenção dos programas sociais ou da
continuidade da melhoria do padrão de vida dos mais pobres, pois tais questões
não cabem no projeto de sociedade defendido por eles.
Da mesma maneira que precisamos
identificar que os programas de governos e as políticas de estado que vem sendo
implementadas desde 2003, compõem, mesmo que de maneira tímida, os elementos
para a construção do projeto de sociedade que defendemos, com mais direitos,
sem opressões e sem exploração.
Exatamente por isso, a luta pela
alternância precisa se dar no terreno da disputa por este projeto de sociedade.
Qualquer alternativa que esteja fora deste terreno precisa ser combatida.
Valendo sempre lembrar que chegar
ao governo não é chegar ao poder. Mas este é um importante instrumento de
transformação, decisivo para que se tenham condições de enfrentar os
adversários dos trabalhadores, que seguem detendo, pelo poder econômico, o
controle dos meios de comunicação, do judiciário e do legislativo.
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