9.2.22

A dimensão moral do programa

 [Texto originalmente publicado na edição de fevereiro do jornal Página 13]


Bolsonaro e a extrema-direita conseguiram mobilizar, ao longo dos últimos anos, uma expressiva força política e social através da constante disputa cultural e ideológica. Eles foram favorecidos pelo aprofundamento da crise econômica iniciada em 2008 e pelas condições que a própria direita impôs ao Brasil desde a preparação do golpe de 2016, com o desemprego crescente, a perda de direitos trabalhistas e sociais, e a piora nas condições de vida de milhões de trabalhadoras e trabalhadores.

Mesmo apresentando um programa que apontava para o aprofundamento da crise para os mais pobres, com privatizações, reformas ultraliberais e redução das liberdades democráticas e da proteção social, parcelas da classe trabalhadora foram ganhas pelo bolsonarismo. Existem diversos fatores que explicam, em maior ou menor medida, esse movimento à direita, como a força do conservadorismo nas classes populares, a situação internacional, a fragilização das organizações populares de esquerda, a perda de território para organizações fundamentalistas, para o crime e a milícia, os erros cometidos pelos governos petistas e os anos de ataques da direita através do oligopólio da mídia e do judiciário.

Mas há também uma dimensão moral no programa conservador bolsonarista que cumpriu um importante papel na disputa travada. Por um lado, a chamada “pauta moral” ou dos costumes foi atiçada contra a esquerda, num movimento de caracterização da direita como defensora de supostos “bons valores” (cristãos, heteronormativos e etc.). Por outro, se buscou constituir uma determinada moralidade pelo discurso “contra” a corrupção e a criminalização do PT.

Tudo isso contribuiu para que a extrema-direita e o bolsonarismo conseguissem se apresentar, por exemplo, como uma alternativa antissistema, no momento em que crescia em parte da população a compressão de que a piora das condições de vida estava diretamente ligada ao governo, aos políticos e as instituições.

Mas passados mais de três anos do início do governo Bolsonaro, a situação econômica e social piorou brutalmente; são mais de 620 mil pessoas mortas, milhares dessas mortes devido ao negacionismo que levou a falta de vacinas; Bolsonaro e sua família tornaram ainda mais público que são parte integrante do sistema; e os casos de corrupção, como o superfaturamento de vacinas e o dinheiro escondido para comprar apoio no congresso e financiar aliados, se tornaram cotidianos.

Ainda assim, o governo segue com o apoio de aproximadamente 25% dos eleitores. Há quem considere esse percentual baixo, principalmente quando colocado ao lado das intenções de voto que, hoje, Lula tem registrado. Com isso, acabam subestimando a força do bolsonarismo, que apesar de tudo que já fez, ainda possui cerca de ¼ do eleitorado.

Mas além disso, deixam em segundo plano o impacto que a influência do bolsonarismo promoveu em setores da classe trabalhadora. São anos de um trabalho cotidiano de difusão de mentiras, mas também da defesa de posições conservadoras, racistas, machistas, lgbtfóbicas, individualistas e de uma meritocracia egoísta.

 

Enfrentar essa dimensão moral do programa bolsonarista será fundamental para derrotar a extrema-direita. O estrago causado na vida de milhões de pessoas desde o golpe de 2016 foi imenso e, mesmo que muitos considerem que Lula pode devolver aquilo que foi tirado, essa compreensão não ocorre de forma automática e nem se dará apenas por meio de publicidade e marketing eleitoral.

Por isso, o programa que o PT e a campanha de Lula devem apresentar para as eleições de 2022 precisa ter muita nitidez em todas as suas dimensões, inclusive no campo “moral”. E nesse aspecto as posições não podem esperar a campanha eleitoral para serem apresentadas.

A defesa de valores como a solidariedade, o coletivismo, a alteridade, a tolerância e de princípios como a justiça social precisarão ser trabalhados cotidianamente. Mas isso não será fácil, principalmente num cenário em que milhões de pessoas não tem o que compartilhar, o que comer, onde morar e que estão lutando todos os dias, muitas vezes uns contra os outros, para sobreviver.

No entanto, se quisermos efetivamente dar conta de um programa de transformação e reconstrução do país, que desfaça tudo aquilo que foi feito pelo menos desde o golpe de 2016 e que avance com reformas estruturais, alguns desses valores precisarão ser reforçados em amplos setores da classe trabalhadora.

Isso não será fácil, e será muito mais difícil de ser feito se a chapa presidencial de Lula for composta por alguém que expressa exatamente o oposto dessas ideias, como o “ex-tucano”, golpista, conservador, espancador de professor e privatista, Geraldo Alckmin. Ou ainda por meio de uma federação partidária que reúna partidos de centro-direita que foram cumplices do golpe de 2016 e da aprovação das reformas neoliberais.

O programa precisa expressar nossa disposição e capacidade de enfrentar o sistema financeiro, o oligopólio dos meios de comunicação, o latifúndio, o imperialismo e de garantir empregos, comida, moradia, terra, saúde, educação, proteção social e dignidade para o povo. Um programa, portanto, que tenha moral para convencer as trabalhadoras e os trabalhadores da sua necessidade e urgência. Ou fazemos isso, adotando uma tática de mobilização de massas, ou podemos ver novamente a extrema-direita aproveitar a degradação da vida do povo para, a partir do que as pessoas têm de pior, mobilizá-las contra seus próprios interesses.

2.2.22

La Casa de Papel

[Texto originalmente publicado na Revista Esquerda Petista de Janeiro de 2022]


A série

Tóquio. Nairóbi. Berlim. Moscou. Helsinque. Oslo. Denver. Rio. Estocolmo. Palermo. Lisboa. Marselha. Bogotá. Manila. O que todas essas cidades possuem em comum? São os codinomes dos personagens da série La Casa de Papel, produção espanhola que estreou no ano de 2017 e se tornou um dos maiores sucessos do streaming Netflix.

Por alguns anos, ela permaneceu como a série mais vista da plataforma, sendo o conteúdo em língua não inglesa mais assistido entre todos os títulos disponíveis. Criada por Alex Pina, nascido em Pamplona, e dirigido por Jesús Colmenar, Koldo Serra, Álex Rodrigo e Javier Quintas, La Casa de Papel teve sua última temporada lançada no dia 03 de dezembro de 2021.

Mas afinal de contas, como uma série não americana, com um roteiro que tinha tudo para ser mais um clichê, tornou-se um fenômeno global? Qual a novidade em outra história de assalto? Quantos e quantos filmes já não mostraram os mais genais planos e roubos? Por que então todo esse sucesso? Agregue-se o fato de não haver nenhuma atriz ou ator hollywoodiano que impulsionasse por si o enredo da história.

Para começar, La Casa de Papel possui um conjunto de elementos que se assemelham a maioria dos filmes e demais produções do gênero. Por trás do plano genial, uma mente genial. Na série, esta é a do Professor, personagem interpretado por Álvaro Morte, que também fez “El secreto de Puente Viejo”.

Além do Professor, o grupo de atracadores é formado por pessoas com habilidades essenciais para o sucesso do plano. Para quem já assistiu algum dos filmes da trilogia “Onze Homens e Um Segredo”, de Steven Soderbergh ou “O Plano Perfeito”, de Spike Lee, nenhuma novidade.

Mas talvez seja justamente aí, naquilo que tantos já fizeram, que La Casa de Papel conseguiu introduzir os elementos do seu sucesso. Por trás dos macacões vermelhos e das máscaras de Salvador Dalí, não estavam apenas os personagens da série, mas cada um e cada uma de nós, cumplices do assalto.

Pois foi justamente essa a atmosfera construída ao longo de toda a série. A cada momento em que o plano era explicado e que os fatos se desdobravam, era possível sentir a empatia de quem faz parte de uma torcida. Ou melhor, de quem é um jogador do mesmo time. Além disso, ao conhecer a história de cada personagem, os laços de afinidade foram sendo cuidadosamente fiados. Nos deparamos com pessoas falhas, orgulhosas, egoístas, cheias de defeitos e problemas. Mas também, cheias de sonhos, bondade, solidariedade, desejos e esperanças.

A série consegue o feito de mostrar, através de um crime, pessoas comuns fazendo o extraordinário. E esse extraordinário não é movido por um ideal comum de mudar o mundo ou enfrentar o sistema. Cada um aceita participar da empreitada por seus próprios motivos e interesses. Mas logo fica evidente que há muito mais do que apenas a soma de interesses individuais.

Existe sim um sistema à ser enfrentado. E esse sistema está expresso em símbolos. Primeiro, a Casa da Moeda da Espanha. Um lugar que, literalmente, imprime dinheiro. Papel Moeda. A mesma que é responsável pela miséria e pelo sofrimento de alguns dos nossos personagens em vidas complicadas e cheias de dor. O segundo, o próprio Banco da Espanha e sua reserva de ouro. Símbolo de poder e de dominação, o ouro espanhol já foi objeto de contos, mitos e histórias sobre maldições e piratas. Acumulado pela pilhagem de países pobres, principalmente da América Latina e do Caribe através de séculos, é justamente a reserva de ouro do Banco da Espanha que serve de barganha para a liberdade.

Não são assaltos a bancos privados, a cassinos ou ao cofre de um bilionário. Não é a “fortuna privada”, que na maior parte dos filmes é o objeto da cobiça e da justiça. Os alvos são símbolos de poder e dominação, e isso faz toda a diferença. Acrescente-se a trilha sonora que embala alguns dos momentos mais marcantes da série, como as celebrações ao som da canção antifascista “Bella Ciao”, e temos a caracterização do que realmente representa aquilo que estão fazendo, coletivamente, nossos personagens: lutando.

Mas será correto considerar a ação de um pequeno grupo de assaltantes, movidos por interesses particulares, a representação de uma luta antissistema? Certamente é preciso fazer muitas ponderações. Por mais que milhões de Euros jogados do céu nos faça sentir uma “justiça de Robin Hood”, isso por si só não faz de alguém um herói.

 

Banditismo Social?

O conceito de banditismo social está presente, entre outras obras, no livro “Bandidos”, do historiador marxista Eric Robsbawm. Na obra, Robsbwam apresenta diversas caracterizações e exemplos históricos de grupos que agiram contra “a lei e a ordem”, mas que foram vistos por seus pares como protetores ou heróis.

Ao falar do Brasil, Robsbawm lembra dos cangaceiros, com destaque para Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. O exemplo de Lampião e seu bando ilustra a ambiguidade dos “bandidos sociais”, vistos tanto como heróis quanto como criminosos. De toda forma, uma das ideias expressas é a do “bandido como uma figura de protesto e rebelião social”.

A noção de banditismo social aparece de diversas formas em La Casa de Papel. Em suas primeiras temporadas, que retratam o assalto a Casa da Moeda da Espanha, o plano do Professor tem como um dos seus principais elementos o ganho do apoio popular. A chuva de Euros lançados a partir de dirigíveis, além de cumprir o papel de distração, busca constituir um caráter “social” ao assalto.

Algo que também é demonstrado a cada tentativa de convencer os reféns a colaborarem com o assalto, com a promessa de que parte do dinheiro ficará com eles. Em vários diálogos, a busca pela colaboração tenta revelar que não se trata de um roubo “mesquinho”, mas que ele possui objetivos morais bem mais grandiosos.

Assim como os exemplos pesquisados por Robsbawm, os nossos personagens são simultaneamente vistos como heróis e criminosos, tanto pelos reféns, quanto pelo conjunto da população que acompanha o desenrolar do assalto. A moralidade dúbia dos assaltantes, que por vezes faz parecer que estão tirando dos ricos para dar aos pobres, é constantemente questionada ao terem suas vidas e passados expostos.

No entanto, mesmo quando alguns deles têm suas identidades e crimes revelados, o que se percebe é que a grandiosidade do que se está tentando fazer, associada a noção de justiça que de certa forma representam, torna os personagens verdadeiros símbolos de resistência. Não à toa que, dentro e fora das telas, as máscaras de Dalí se transformaram em algo parecido com aquilo que a de Guy Fawkes se tornou após o clássico V de Vingança.

Nesse sentido, cabem ainda as palavras de Robsbawm, quando diz que o banditismo social, seja ele reformista ou revolucionário, “em si não constitui um movimento social. Pode ser uma alternativa disso, como ocorre quando camponeses admiram Robin Hoods como seus defensores, por falta de uma atividade mais positiva por parte deles próprios” (p.34).

Na ausência de uma luta explicita e efetivamente antissistema, ter quem busque enfrentar parte dele já é algo bem significativo. De tal forma que, mesmo não existindo uma bussola ideológica que oriente a conduta dos personagens, a bussola moral utilizada por eles, os conduz a um caminho muito próximo de quem luta contra o mesmo sistema que eles estão enfrentando.

E aqui chegamos num ponto de virada, principalmente nas últimas temporadas da série, quando os personagens são movidos pela solidariedade com seus companheiros. O plano do roubo ao Banco Real da Espanha, diferente do realizado na Casa da Moeda, tem o objetivo principal de resgate. Mas muito mais do que um companheiro é resgatado junto com ele.

 

As grandes ilusões

Existem inúmeras críticas a La Casa de Papel não ter se encerrado com o desfecho do assalto a Casa da Moeda. Há quem diga que sua consagração já tinha chegado e que seria um risco imenso reabrir as cortinas para um novo ato. Acontece que as temporadas da série que tratam do assalto ao Banco Real da Espanha foram fundamentais para que ela pudesse responder algumas das questões colocadas anteriormente.

A prisão de Rio e todas as torturas pelas quais ele passou, as mentiras contadas para a população, o uso de mercenários e a corrupção na polícia, mostraram a face do sistema enfrentado pelos personagens. Um sistema podre, mas que não cai de maduro. E que diante de uma ameaça reage tudo aquilo que tem de pior.

Mas além disso, um sistema sustentando por fortes ilusões. Ao longo das primeiras temporadas, vimos o Professor utilizar ilusões para enganar a polícia e garantir a execução do plano. Desde pequenos truques, como falsas pistas plantadas, até grandes feitos, como o resgate de helicóptero diante de toda a imprensa e a guarda nacional.

Mas entre todas as ilusões, há uma que as últimas temporadas de La Casa de Papel conseguem demonstrar com grande êxito: a ilusão da riqueza. O assalto ao Banco Real da Espanha se inicia para resgatar Rio, mas não termina por isso. E é o desfecho desse assalto que faz a série responder questões e superar as dúvidas sobre se tratar apenas da história de um grupo de bandidos que pensam unicamente em si, ou se representam mesmo uma faísca de luta contra o sistema.

- O que é o ouro de um país?

- Sua riqueza?

- Não, uma ilusão.

Esse breve diálogo entre o Professor e Palermo sintetiza a ideia principal construída ao longo das últimas temporadas da série. Desde que o plano de resgate de Rio foi apresentado, sabíamos que era preciso retirar todo o ouro do banco. Mas porquê? Apenas por ganância? Não. Mais de uma vez foi dito que essa era a única forma de saírem.

Mas como? Era possível retirar o ouro, mas não era possível sair. E é neste ponto que o plano do Professor mostra a grande ilusão que faz o sistema funcionar, e sem a qual, ele desmorona. A ilusão da riqueza. Em outras palavras, não se trata de ter ouro no cofre. Se trata apenas de acharem que há.

Aqui La Casa de Papel dá um salto de uma certa forma de “banditismo social”, para uma verdadeira denúncia e enfrentamento ao sistema. Mesmo que a bussola que continua orientando a ação dos personagens seja principalmente a moral, ela aponta para o mesmo norte da ideologia.

A liberdade dos personagens está condicionada a ilusão criada pelo próprio sistema. E o plano faz dessa ilusão uma realidade com a qual todos precisam lidar. Ao tratar do funcionamento do sistema capitalista como ele realmente é, La Casa de Papel deixou para trás a maior parte das dúvidas que ainda podiam pairar sobre ela.

Menos, é claro, a dúvida sobre o que tinha escrito na mensagem do Professor para o jovem Rafael. Mas essa, talvez, seja somente mais uma ilusão.


12.12.21

Programa à esquerda ou federação ao centro?

Começamos o último mês desse difícil ano de 2021. Um ano marcado pela segunda onda da pandemia de Covid-19 e pelo agravamento da crise social e econômica provocada pelo governo Bolsonaro. São cerca de 20 milhões de pessoas passando fome, mais de 15 milhões sem encontrar emprego, uma inflação que tem feito o carro do ovo vender a bandeja a R$ 16,00 e uma política de preços na Petrobras que faz o preço da gasolina chegar a quase R$ 8,00.

Por conta do governo Bolsonaro, de seus aliados e de suas políticas, o balanço do ano de 2021 é muito ruim para a maioria do povo brasileiro. Diante de uma situação tão difícil, será que podemos olhar para 2022 com esperanças? Acredito que sim.

A classe trabalhadora brasileira deu importantes demonstrações de força, mesmo diante das enormes dificuldades enfrentadas. Apesar dos riscos do vírus, foram diversas mobilizações que levaram centenas de milhares de pessoas às ruas do país em defesa da vacina, de empregos e contra a fome. Ao mesmo tempo, após a recuperação dos direitos políticos de Lula, ele lidera todas as pesquisas de opinião para as eleições presidenciais do próximo ano.

Ou seja, existe uma janela de oportunidade para que a classe trabalhadora derrote a extrema direita e seu projeto de morte e fome. No entanto, a existência da janela não significa que vamos conseguir passar por ela. Em outras palavras, a vitória precisa ser construída, pois ela não cairá do céu e nem será entregue por delivery se ficarmos esperando em casa.

Uma questão fundamental para construirmos essa vitória é termos muita nitidez programática. Uma parcela expressiva da classe trabalhadora continua cheia de dúvidas se Lula conseguirá ser candidato, se conseguirá tomar posse, se conseguirá governar e, governando, o que fará para acabar com toda a desgraça que a direita vem fazendo com o país desde o golpe de 2016.

Por isso, não podemos terminar o ano de 2021 dando sinais que aumentam essas dúvidas, como a absurda hipótese de uma composição com o tucano Geraldo Alckmin. Da mesma forma que é um erro apressar o debate sobre as federações partidárias e terminar o ano flertando com uma sugestão de federação com o PSB, partido que em 2014 lançou candidatura contra Dilma e que apoiou Aécio no segundo turno; votou pelo impeachment em 2016; que em 2018, diante da disputa entre Lula e Haddad contra Bolsonaro, optou pela neutralidade; e que em 2020 promoveu uma das mais raivosas campanhas antipetistas do país.

É evidente que o PSB pode fazer uma reorientação da sua política. Que a banda de esquerda do partido poderia combater sua banda de direita. E seria ótimo que isso ocorresse. No entanto, não há indícios de que isso esteja em curso, pelo contrário. Além das tratativas para a filiação do tucano Geraldo Alckmin, parte da bancada do partido tem sido aliada de primeira ordem de Arthur Lira e da política bolsonarista na Câmara dos Deputados.

É por isso, também, que o flerte de dirigentes do PT com a proposta de federação partidária feita pelo PSB é muito ruim. Indica um caminho equivocado, que tem como pano de fundo a busca de uma moderação e de um centro que apenas rebaixa o debate programático. O momento é de fazer exatamente o contrário. É de avançarmos em torno do programa que queremos para o Brasil e, a partir dele, definir a tática e quais aliados estarão juntos.

Afinal de contas, a federação proposta pelo PSB é para desfazer as reformas trabalhista e da previdência? Para acabar com o teto de gastos que limita os investimentos na saúde e na educação? É para combater a atual lógica de hegemonia do agronegócio? Para enfrentar o monopólio dos grandes bancos? Até onde sabemos, não é para isso.

Além do mais, o que tem ocorrido na América Latina e região dá indícios do que podemos enfrentar aqui. No Peru, foi para o segundo turno a candidatura de extrema-direita representada pela filha do ditador Fujimori contra uma candidatura de esquerda, que atropelou as candidaturas de centro. O mesmo acaba de ocorrer no Chile, em que uma candidatura de extrema-direita que defende o legado do ditador Pinochet foi para o segundo turno contra uma candidatura de esquerda, numa situação de grande polarização.

Nos dois casos, assim como na Argentina, na Bolívia e na Venezuela, locais em que obtivemos vitórias eleitorais recentes, foram fundamentais a luta social, a mobilização popular e a defesa de um programa de enfrentamento ao neoliberalismo. Nesses e outros lugares, todas as movimentações rumo ao centro implicaram em fragilização.

Aqui no Brasil, estamos entrando num período de arrefecimento da luta social, que pode se estender até o mês de março de 2022 (período pós carnaval). Nesse período, todas as frações da direita continuarão se movimentando. O bolsonarismo avançará com a tentativa de recuperar apoio popular e crescer em cima do eleitorado de Lula a partir do desmonte do Bolsa Família e do pagamento de R$ 400,00 via Auxílio Brasil. Além disso, fortalecerá sua base de apoio parlamentar por meio do bilionário orçamento secreto e emendas de relator.

Já a direita “não bolsonarista” seguirá na busca de uma candidatura alternativa a Bolsonaro que garanta a continuidade do programa econômico ultraliberal. Rodrigo Pacheco, Alessandro Vieira, Ciro Gomes, João Dória, Eduardo Leite e Sérgio Moro são algumas dessas opções. Não podemos subestimar a “terceira via”, principalmente com a presença de Moro. E sabemos que, caso nenhuma delas emplaque, Bolsonaro continuará sendo a alternativa das elites para derrotar Lula e o PT.

Por isso, é fundamental que o PT adote uma tática de enfrentamento contra todos esses setores, organizando uma campanha em torno de um programa de esquerda e não caindo em ilusões conciliatórias ou em flertes como esse do PSB. É essa a resposta que precisamos ter diante das demonstrações de força e resistência que a classe trabalhadora deu ao longo de todo esse ano.

É essa a conduta que precisamos ter para encarar o ano de 2022, que exigirá muita luta social e muita mobilização popular para derrotar a direita nas ruas e nas urnas. E mais do que isso, para conseguir desfazer suas maldades. Fica aqui a questão: faremos isso ombreados com quem votou nas reformas neoliberais? Ou faremos isso para derrotar quem votou nas reformas neoliberais?


*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores

2.11.21

Dias para pensar

Existem dias que devemos simplesmente parar.

Deixar o ar entrar nos pulmões e pensar nele por um instante.

Em como são simples as coisas mais importantes.

Complicamos demais a vida. 

Exigimos demais dela, quando ela nos pede tão pouco.

As vezes, apenas inspirar e expirar. E perceber que tudo, queiramos ou não, uma hora vai passar.



6.9.21

Democracia ou Golpe? O 7 de setembro e a luta contra o autoritarismo

Publicado em: https://pontocritico.org/06/09/2021/democracia-ou-golpe-o-7-de-setembro-e-a-luta-contra-o-autoritarismo/


Mais de 583.628 pessoas mortas em decorrência da covid-19. Quase 20 milhões de famintos. 40 milhões de desempregados e desalentados. Metade da população do país em situação de insegurança alimentar. O litro da gasolina custando em média R$ 7,00, o botijão de gás mais de R$ 100,00 e o risco iminente de um apagão elétrico, com o povo pagando a conta com aumento nas tarifas energéticas. Será nessas condições que o Brasil chegará no 7 de setembro de 2021.


É diante desse cenário que a extrema-direita, uma das responsáveis diretas por essa situação, convoca mobilizações golpistas em todo o país. Bolsonaro e seus aliados sabem que nos aproximamos de uma situação limite, quando as condições de vida da maioria do povo pioram brutalmente em decorrência da política negacionista e do programa ultraneoliberal, sendo o autoritarismo o caminho para dar seguimento a essa política entreguista, privatista e de morte.


Como vimos há poucas semanas, na votação da PEC do voto impresso, o Partido Militar (que hoje é uma das principais vigas de sustentação do bolsonarismo) colocou tanques nas ruas de Brasília para dar uma demonstração de força e ameaçar os parlamentares. O objetivo foi parcialmente alcançado, afinal, mesmo derrotada, a PEC teve o apoio da maioria entre aqueles que votaram e catalisou a ânsia golpista dos setores mais extremistas do bolsonarismo, como aqueles que pedem um novo AI-5 e intervenção militar.


Diante das quedas em todas as pesquisas de opinião e da iminência de uma derrota eleitoral, Bolsonaro faz aquilo que a direita tem feito desde 2016: não pagar pra ver. Em 2016, deram o golpe contra a presidenta Dilma, depois prenderam o presidente Lula, tiraram seus direitos políticos, o impediram de concorrer nas eleições de 2018 (quando Lula, assim como agora, também liderava todas as pesquisas), e conjuraram do esgoto o neofascismo bolsonarista.


Enquanto faziam isso, impuseram o programa ultraneoliberal, com a criação do teto de gastos, o congelamento dos investimentos, a privatização de setores estratégicos, o desmonte da previdência social, da legislação trabalhista, do Bolsa Família e um ataque sem precedentes ao meio ambiente, as políticas de cultura e de educação. Não é absurdo afirmar que em cinco anos, a direita fez o Brasil retroceder décadas, tudo isso, entre outros motivos, para não pagar pra ver.


O objetivo é fazer do país aquilo que ele foi no passado, um estado dependente, exportador de matérias primas, controlado pelo latifúndio e o agronegócio, onde a questão social era caso de polícia e em que a classe dominante possuía uma taxa de lucros que a permitia acumular riquezas com o máximo de exploração da classe trabalhadora. Além disso, reforçando por meio da violência, todos os tipos de racismo, o machismo e as estruturas de opressão e dominação que por séculos foram erguidas contra o povo brasileiro, especialmente a população pobre, negra e as mulheres.


Para a direita dar seguimento a esse programa e atingir esses objetivos é cada vez mais necessária uma mudança nas regras do jogo. Por isso, as constantes tentativas de mudar o sistema político e eleitoral, com propostas como semi-presidencialismo e parlamentarismo. No entanto, Bolsonaro e seus aliados já demonstraram mais de uma vez, em diversos ensaios, que não vão pagar pra ver. De tal forma que o 7 de setembro está sendo tratado por eles como uma possibilidade de virar a mesa.


É por isso que toda a mobilização popular neste 7 de setembro, organizada principalmente nos atos do Grito dos Excluídos, precisa ser para enfrentar essa ofensiva que possui um caráter golpista. É a democracia, assim como a vida e as liberdades, que está em risco diante dessa escalada autoritária.


Há diversos setores receosos de enfrentamentos diretos, com a realização de atos simultâneos com aqueles convocados pela direita. Mas não devemos temer. A classe trabalhadora brasileira possui um histórico de luta e mobilização que já foi capaz de derrotar as elites e seus asseclas por mais de uma vez. Se não os enfrentarmos agora, corremos o risco de desacumular num momento que crescemos.


Desde a recuperação dos direitos políticos de Lula, e dos diversos atos nacionais realizados a partir do dia 29 de maio, cada vez mais setores do campo democrático-popular se colocaram em luta, enfrentando o vírus e seus principal aliado que é o governo Bolsonaro.


A direita não pode ocupar as ruas e muito menos achar que nos tiraram delas. O 7 de setembro de 2021 precisa ser maior que todos os atos que realizamos até agora. Que travemos o bom combate, lado a lado, em defesa da vida, da soberania e da democracia e contra o a fome e o autoritarismo.


*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores

15.5.21

Sobre as dúvidas

 Alguma coisa mudou. 

E a mudança doeu, principalmente por não saber porque aconteceu

Na dúvida, lembro que tudo muda

E isso ajuda

Mesmo que no fundo

Sinta que devo perguntar de quem é a culpa

2.5.21

Sobre novos amigos

Fiz um novo amigo 

Alguém que não esperava

Mas parece ser assim que elas funcionam 

Com novos segredos e confissões

Coisas que não se contam nem pro travesseiro

Mas que para o novo amigo se fala