18.8.14

Notas sobre os desafios das juventudes em Pernambuco



 * Patrick Campos Araújo

Seguindo a tendência nacional, a população jovem de Pernambuco (compreendida como aquela na faixa etária entre 15 e 29 anos) cresceu.  Já somos em 2014 mais de ¼ dos pernambucanos, com uma maioria de mulheres, negras e pardas (IBGE 2010).
Este chamado “bônus demográfico” tem sido um dos grandes fatores do ciclo de crescimento econômico de Pernambuco. Da população economicamente ativa do estado, que já supera a inativa, cerca de 36% são jovens.
Aliada deste processo de crescente da população jovem, o estado recebeu ao longo dos últimos doze anos um conjunto de investimentos que nos permitiram um salto nos índices de emprego, renda e educação.
Todavia, tudo isso num ritmo que inicialmente teve que superar os catastróficos anos de governos neoliberais que entregaram a iniciativa privada o BANDEPE (Banco do Estado de Pernambuco), a CELPE, companhia elétrica estadual, sucatearam os serviços públicos de saúde, educação e segurança, além das enormes taxas de desemprego.
Fazer um balanço profundo das transformações vividas pelo estado e seus desdobramentos para juventude é algo imprescindível para seguirmos uma escala ascendente de ampliação da qualidade de vida e de direitos para a juventude pernambucana.
Em especial porque, analisando pontualmente algumas questões, é nítida a necessidade de políticas estaduais de juventude que, de maneira colaborativa e integrada, consolidem as mudanças proporcionadas pelas ações do Governo Federal.
Um primeiro exemplo pode ser dado na relação educação, formação profissional, emprego e renda. Nos últimos anos, além da ampliação das vagas nas Universidades Federais (UFPE e UFRPE) e suas respectivas expansões na perspectiva de interiorização, foi criada também a Universidade Federal do Vale do São Francisco.
Concomitante a este processo, já foram ofertadas no estado mais de 27 mil bolsas PROUNI, mais de 44 mil contratos FIES, mais de 390 mil matrículas no PRONATEC, além dos 7 novos Campi (5 já em funcionamento) de Institutos Federais.
Apenas pelo Ciências de Fronteiras já são mais de 3 mil estudantes pernambucanos com bolsas de estudo no exterior, número que aumentará significativamente com as novas chamadas para os cursos das áreas de humanidades.
Em síntese, a ação destes e outros programas aponta para que tenhamos em Pernambuco a constituição de um novo perfil de jovem trabalhador, com formação profissional técnica e acesso cada vez maior a educação superior.
Todavia, um dos desafios que se apresenta é o de garantir a incorporação destes sujeitos no mundo do trabalho. Nesta perspectiva, o que podemos observar hoje é que ainda não existem ações concretas por parte do Governo do Estado.
Estas ações são indispensáveis, pois, diferente de uma ou duas décadas atrás, já não basta “apenas” ter um diploma de nível superior para que se tenha um emprego garantido. É preciso investir na diversificação econômica do Estado, na ampliação dos serviços e na garantia dos direitos.
Diferente também das décadas passadas, os índices de migração na juventude sofreram significativas transformações. Hoje, não são mais tantos os jovens que saem do interior para a Capital, sendo muitas vezes o fluxo exatamente o oposto.
A garantia de condições de permanência das populações em seus territórios e regiões de origem é algo que pode estar diretamente associado à ampliação das oportunidades de emprego e renda.
Podem-se observar com nitidez os impactos nas micro-regiões da transformação de suas maiores cidades em pólos universitários, imaginemos, portanto, o quanto não se pode avançar com investimentos na pequena e média indústria, na agricultura familiar, e na exploração de tantos outros potenciais de cada região.
Neste sentindo, conseguir enxergar e identificar o papel que pode ser desempenhado pela juventude é decisivo. Papel que hoje, infelizmente, não tem tido a atenção devida por parte do Governo do Estado.
Sintomática, por exemplo, a situação da Universidade de Pernambuco. Nossa única universidade estadual, que poderia jogar um papel estratégico no desenvolvimento, na formação, inovação e produção de conhecimento, e que foi submetida a um processo de exaurimento, sem autonomia financeira e com cada vez menos autonomia política, resultando numa insípida tentativa de expansão que sequer conseguiu garantir as mínimas condições de ensino para a maioria dos novos estudantes.
Ou a política de segurança pública, um suposto pacto pela vida de alguns, onde certamente não está incluída a vida dos jovens negros da periferia. Uma policia militarizada que não consegue lidar com uma simples passeata a ponto de, como ficou tão conhecido no caso de junho/julho de 2013 quando uma estudante, em menos de dez horas foi detida, presa, julgada pela polícia e pela mesma condenada, sendo encaminhada para a colônia feminina por portar “elementos altamente explosivos”, como são aquelas perigosas [sic] bombinhas de São João.
Talvez seja também elucidativo destacar, ou questionar, o quanto tem sido realmente eficiente o currículo e o modelo de organização e de metas das escolas de referência, tão propagandeadas como modelos, mas que na última pesquisa IDEB ficaram atrás de todas as outras escolas que adotam modelos e políticas pedagógicas distintas, como é o caso da Escola Militar do Recife, da Escola de Aplicação da UFPE e as escolas de Aplicação da UPE.
A rápida observação destas questões nos leva a reflexão de quais as mudanças necessárias na orientação da atual política de juventude de Pernambuco. Afinal, em termos gerais, o que temos é uma ausência de políticas públicas específicas para juventude, que têm deixado uma lacuna que pode comprometer a curto e médio prazo o processo de desenvolvimento do estado.
Definir uma estratégia, incorporar a juventude no processo de construção e elaboração de novas diretrizes e desenvolver ações que permitam a juventude protagonizar as mudanças necessárias é um primeiro passo neste momento.
A própria concepção das políticas públicas precisa ser vista de uma perspectiva mais abrangente. A dimensão cultural, bem como os mecanismos de participação e discussão com o conjunto da sociedade precisa ser refeitos. Neste sentido, a experiência da primeira conferência nacional de juventude foi importantíssima e seu método pode ser retomado.
Ninguém conhece melhor as características, diversidades e especificidades das juventudes pernambucanas, do que elas mesmas. Por tanto, que sejam todas elas as grandes responsáveis por fazer as mudanças e transformações que tanto precisamos. 

*Militante da Juventude do PT e diretor da União Nacional dos Estudantes.

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