12.12.21

Programa à esquerda ou federação ao centro?

Começamos o último mês desse difícil ano de 2021. Um ano marcado pela segunda onda da pandemia de Covid-19 e pelo agravamento da crise social e econômica provocada pelo governo Bolsonaro. São cerca de 20 milhões de pessoas passando fome, mais de 15 milhões sem encontrar emprego, uma inflação que tem feito o carro do ovo vender a bandeja a R$ 16,00 e uma política de preços na Petrobras que faz o preço da gasolina chegar a quase R$ 8,00.

Por conta do governo Bolsonaro, de seus aliados e de suas políticas, o balanço do ano de 2021 é muito ruim para a maioria do povo brasileiro. Diante de uma situação tão difícil, será que podemos olhar para 2022 com esperanças? Acredito que sim.

A classe trabalhadora brasileira deu importantes demonstrações de força, mesmo diante das enormes dificuldades enfrentadas. Apesar dos riscos do vírus, foram diversas mobilizações que levaram centenas de milhares de pessoas às ruas do país em defesa da vacina, de empregos e contra a fome. Ao mesmo tempo, após a recuperação dos direitos políticos de Lula, ele lidera todas as pesquisas de opinião para as eleições presidenciais do próximo ano.

Ou seja, existe uma janela de oportunidade para que a classe trabalhadora derrote a extrema direita e seu projeto de morte e fome. No entanto, a existência da janela não significa que vamos conseguir passar por ela. Em outras palavras, a vitória precisa ser construída, pois ela não cairá do céu e nem será entregue por delivery se ficarmos esperando em casa.

Uma questão fundamental para construirmos essa vitória é termos muita nitidez programática. Uma parcela expressiva da classe trabalhadora continua cheia de dúvidas se Lula conseguirá ser candidato, se conseguirá tomar posse, se conseguirá governar e, governando, o que fará para acabar com toda a desgraça que a direita vem fazendo com o país desde o golpe de 2016.

Por isso, não podemos terminar o ano de 2021 dando sinais que aumentam essas dúvidas, como a absurda hipótese de uma composição com o tucano Geraldo Alckmin. Da mesma forma que é um erro apressar o debate sobre as federações partidárias e terminar o ano flertando com uma sugestão de federação com o PSB, partido que em 2014 lançou candidatura contra Dilma e que apoiou Aécio no segundo turno; votou pelo impeachment em 2016; que em 2018, diante da disputa entre Lula e Haddad contra Bolsonaro, optou pela neutralidade; e que em 2020 promoveu uma das mais raivosas campanhas antipetistas do país.

É evidente que o PSB pode fazer uma reorientação da sua política. Que a banda de esquerda do partido poderia combater sua banda de direita. E seria ótimo que isso ocorresse. No entanto, não há indícios de que isso esteja em curso, pelo contrário. Além das tratativas para a filiação do tucano Geraldo Alckmin, parte da bancada do partido tem sido aliada de primeira ordem de Arthur Lira e da política bolsonarista na Câmara dos Deputados.

É por isso, também, que o flerte de dirigentes do PT com a proposta de federação partidária feita pelo PSB é muito ruim. Indica um caminho equivocado, que tem como pano de fundo a busca de uma moderação e de um centro que apenas rebaixa o debate programático. O momento é de fazer exatamente o contrário. É de avançarmos em torno do programa que queremos para o Brasil e, a partir dele, definir a tática e quais aliados estarão juntos.

Afinal de contas, a federação proposta pelo PSB é para desfazer as reformas trabalhista e da previdência? Para acabar com o teto de gastos que limita os investimentos na saúde e na educação? É para combater a atual lógica de hegemonia do agronegócio? Para enfrentar o monopólio dos grandes bancos? Até onde sabemos, não é para isso.

Além do mais, o que tem ocorrido na América Latina e região dá indícios do que podemos enfrentar aqui. No Peru, foi para o segundo turno a candidatura de extrema-direita representada pela filha do ditador Fujimori contra uma candidatura de esquerda, que atropelou as candidaturas de centro. O mesmo acaba de ocorrer no Chile, em que uma candidatura de extrema-direita que defende o legado do ditador Pinochet foi para o segundo turno contra uma candidatura de esquerda, numa situação de grande polarização.

Nos dois casos, assim como na Argentina, na Bolívia e na Venezuela, locais em que obtivemos vitórias eleitorais recentes, foram fundamentais a luta social, a mobilização popular e a defesa de um programa de enfrentamento ao neoliberalismo. Nesses e outros lugares, todas as movimentações rumo ao centro implicaram em fragilização.

Aqui no Brasil, estamos entrando num período de arrefecimento da luta social, que pode se estender até o mês de março de 2022 (período pós carnaval). Nesse período, todas as frações da direita continuarão se movimentando. O bolsonarismo avançará com a tentativa de recuperar apoio popular e crescer em cima do eleitorado de Lula a partir do desmonte do Bolsa Família e do pagamento de R$ 400,00 via Auxílio Brasil. Além disso, fortalecerá sua base de apoio parlamentar por meio do bilionário orçamento secreto e emendas de relator.

Já a direita “não bolsonarista” seguirá na busca de uma candidatura alternativa a Bolsonaro que garanta a continuidade do programa econômico ultraliberal. Rodrigo Pacheco, Alessandro Vieira, Ciro Gomes, João Dória, Eduardo Leite e Sérgio Moro são algumas dessas opções. Não podemos subestimar a “terceira via”, principalmente com a presença de Moro. E sabemos que, caso nenhuma delas emplaque, Bolsonaro continuará sendo a alternativa das elites para derrotar Lula e o PT.

Por isso, é fundamental que o PT adote uma tática de enfrentamento contra todos esses setores, organizando uma campanha em torno de um programa de esquerda e não caindo em ilusões conciliatórias ou em flertes como esse do PSB. É essa a resposta que precisamos ter diante das demonstrações de força e resistência que a classe trabalhadora deu ao longo de todo esse ano.

É essa a conduta que precisamos ter para encarar o ano de 2022, que exigirá muita luta social e muita mobilização popular para derrotar a direita nas ruas e nas urnas. E mais do que isso, para conseguir desfazer suas maldades. Fica aqui a questão: faremos isso ombreados com quem votou nas reformas neoliberais? Ou faremos isso para derrotar quem votou nas reformas neoliberais?


*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores

2.11.21

Dias para pensar

Existem dias que devemos simplesmente parar.

Deixar o ar entrar nos pulmões e pensar nele por um instante.

Em como são simples as coisas mais importantes.

Complicamos demais a vida. 

Exigimos demais dela, quando ela nos pede tão pouco.

As vezes, apenas inspirar e expirar. E perceber que tudo, queiramos ou não, uma hora vai passar.



6.9.21

Democracia ou Golpe? O 7 de setembro e a luta contra o autoritarismo

Publicado em: https://pontocritico.org/06/09/2021/democracia-ou-golpe-o-7-de-setembro-e-a-luta-contra-o-autoritarismo/


Mais de 583.628 pessoas mortas em decorrência da covid-19. Quase 20 milhões de famintos. 40 milhões de desempregados e desalentados. Metade da população do país em situação de insegurança alimentar. O litro da gasolina custando em média R$ 7,00, o botijão de gás mais de R$ 100,00 e o risco iminente de um apagão elétrico, com o povo pagando a conta com aumento nas tarifas energéticas. Será nessas condições que o Brasil chegará no 7 de setembro de 2021.


É diante desse cenário que a extrema-direita, uma das responsáveis diretas por essa situação, convoca mobilizações golpistas em todo o país. Bolsonaro e seus aliados sabem que nos aproximamos de uma situação limite, quando as condições de vida da maioria do povo pioram brutalmente em decorrência da política negacionista e do programa ultraneoliberal, sendo o autoritarismo o caminho para dar seguimento a essa política entreguista, privatista e de morte.


Como vimos há poucas semanas, na votação da PEC do voto impresso, o Partido Militar (que hoje é uma das principais vigas de sustentação do bolsonarismo) colocou tanques nas ruas de Brasília para dar uma demonstração de força e ameaçar os parlamentares. O objetivo foi parcialmente alcançado, afinal, mesmo derrotada, a PEC teve o apoio da maioria entre aqueles que votaram e catalisou a ânsia golpista dos setores mais extremistas do bolsonarismo, como aqueles que pedem um novo AI-5 e intervenção militar.


Diante das quedas em todas as pesquisas de opinião e da iminência de uma derrota eleitoral, Bolsonaro faz aquilo que a direita tem feito desde 2016: não pagar pra ver. Em 2016, deram o golpe contra a presidenta Dilma, depois prenderam o presidente Lula, tiraram seus direitos políticos, o impediram de concorrer nas eleições de 2018 (quando Lula, assim como agora, também liderava todas as pesquisas), e conjuraram do esgoto o neofascismo bolsonarista.


Enquanto faziam isso, impuseram o programa ultraneoliberal, com a criação do teto de gastos, o congelamento dos investimentos, a privatização de setores estratégicos, o desmonte da previdência social, da legislação trabalhista, do Bolsa Família e um ataque sem precedentes ao meio ambiente, as políticas de cultura e de educação. Não é absurdo afirmar que em cinco anos, a direita fez o Brasil retroceder décadas, tudo isso, entre outros motivos, para não pagar pra ver.


O objetivo é fazer do país aquilo que ele foi no passado, um estado dependente, exportador de matérias primas, controlado pelo latifúndio e o agronegócio, onde a questão social era caso de polícia e em que a classe dominante possuía uma taxa de lucros que a permitia acumular riquezas com o máximo de exploração da classe trabalhadora. Além disso, reforçando por meio da violência, todos os tipos de racismo, o machismo e as estruturas de opressão e dominação que por séculos foram erguidas contra o povo brasileiro, especialmente a população pobre, negra e as mulheres.


Para a direita dar seguimento a esse programa e atingir esses objetivos é cada vez mais necessária uma mudança nas regras do jogo. Por isso, as constantes tentativas de mudar o sistema político e eleitoral, com propostas como semi-presidencialismo e parlamentarismo. No entanto, Bolsonaro e seus aliados já demonstraram mais de uma vez, em diversos ensaios, que não vão pagar pra ver. De tal forma que o 7 de setembro está sendo tratado por eles como uma possibilidade de virar a mesa.


É por isso que toda a mobilização popular neste 7 de setembro, organizada principalmente nos atos do Grito dos Excluídos, precisa ser para enfrentar essa ofensiva que possui um caráter golpista. É a democracia, assim como a vida e as liberdades, que está em risco diante dessa escalada autoritária.


Há diversos setores receosos de enfrentamentos diretos, com a realização de atos simultâneos com aqueles convocados pela direita. Mas não devemos temer. A classe trabalhadora brasileira possui um histórico de luta e mobilização que já foi capaz de derrotar as elites e seus asseclas por mais de uma vez. Se não os enfrentarmos agora, corremos o risco de desacumular num momento que crescemos.


Desde a recuperação dos direitos políticos de Lula, e dos diversos atos nacionais realizados a partir do dia 29 de maio, cada vez mais setores do campo democrático-popular se colocaram em luta, enfrentando o vírus e seus principal aliado que é o governo Bolsonaro.


A direita não pode ocupar as ruas e muito menos achar que nos tiraram delas. O 7 de setembro de 2021 precisa ser maior que todos os atos que realizamos até agora. Que travemos o bom combate, lado a lado, em defesa da vida, da soberania e da democracia e contra o a fome e o autoritarismo.


*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores

15.5.21

Sobre as dúvidas

 Alguma coisa mudou. 

E a mudança doeu, principalmente por não saber porque aconteceu

Na dúvida, lembro que tudo muda

E isso ajuda

Mesmo que no fundo

Sinta que devo perguntar de quem é a culpa

2.5.21

Sobre novos amigos

Fiz um novo amigo 

Alguém que não esperava

Mas parece ser assim que elas funcionam 

Com novos segredos e confissões

Coisas que não se contam nem pro travesseiro

Mas que para o novo amigo se fala


23.4.21

Sobre muros e defesas

As defesas foram recompostas.

Os muros que tinham sido penetrados, mais uma vez foram reconstruídos.

Depois de tantas vezes, pegamos a prática.

Pelo menos disso podemos nos orgulhar.

O ruir constante de nossas defesas proporciona os raros momentos sem tristeza.

E a capacidade de reconstruir, mantém os piores afastados.

17.4.21

Sobre a distância

O tempo e o espaço são dimensões da existência

Sua força é capaz de quase tudo no universo 

E também é para cada indivíduo que existe nele 

Que bom para o universo e que bom para cada um ter a distância e o tempo 


Para o universo, o espaço-tempo dá sustentação

Para o indivíduo, ele cria toda a ilusão

E para todos tudo isso parece ser parte da razão 


Pena que nos dias difíceis, para o universo e os indivíduos, o tempo e o espaço deixem de fazer sentido

Então ficamos assim 

Pensando em como tudo poderia ter sido


Desejando que o tempo passe ou volte

Até que a distância afaste de vez ou traga mais uma vez aquela que um dia nossa ilusão tanto quis 

Que nunca tivesse existido 

Ou que jamais tivesse partido